Nove "estações"
De modo a concretizar os objectivos definidos no projecto, a intervenção contemplou um conjunto de nove "estações" (inicialmente eram dez, mas a insuficiência orçamental da Medida AGRIS só permitiu, nesta primeira fase, o avanço de oito, ficando a aguardar melhor oportunidade a Casa do Trabalhador Rural e o Parque Ambiental). Ainda assim, o conjunto já disponível permitirá conhecer e identificar a vivência rural em S. Pedro de Rates – aquela que, situando-nos em meados do séc. XX, não diferia muito de tempos mais distantes.
A PRAÇA
A Praça (simplesmente, "a praça") - assim se chamou sempre este espaço, o centro cívico de Rates, cuja actual designação alude aos documentos régios (os Forais) que, desde a baixa Idade Média, conferiram a esta povoação uma autonomia administrativa que durou mais de 6 séculos e de que são símbolos maiores o edifício da Câmara e o Pelourinho (manuelino), que justamente presidem à organização deste recanto nobre, no centro do qual viria a colocar-se, no séc. XVIII, por ampliação de um primitivo nicho, a Capela do Senhor da Praça. Singular situação esta: a escassos metros do austero românico, a Capela oferece-nos a exuberância da escultura barroca.
A FONTE DE S. PEDRO
A
fonte de S. Pedro (que um painel de azulejos reproduz, a partir do único
registo fotográfico conhecido, do primeiro quartel do séc. XX) foi substituída
pelo actual fontanário na função de abastecer de água a Rua Direita e o centro
histórico.
Da primitiva fonte conserva a
memória popular algumas lendas, associadas à fertilidade.
Diz uma delas que as senhoras que
tivessem dificuldade em engravidar ("alcançar", na linguagem popular) deveriam
sentar-se numa pedra furada que aqui existiu…
A FONTE ANTIGA
Como o próprio nome indica, esta terá sido a primeira fonte de abastecimento da população de Rates. Antigamente ligada à fonte de S. Pedro através de um carreiro que há muitas décadas foi desafectado do uso público, a Fonte Antiga é hoje um pequeno poço, de onde a água é extraída por meio de uma picota. Esta fonte/poço alimenta, através de uma mina, um lavadouro, em pedra ferrosa (da Serra de Rates), sito 50 metros a poente, à face do caminho que liga o lugar do Outeiro (onde se situa a Capela do Senhor dos Passos) ao de Santo António (onde desemboca junto à Capela do mesmo Santo).
CASA DE LAVRADOR
Esta casa – uma das várias que partilharam o vale fértil de Rates – é refúgio das memórias associadas à cultura dos cereais e do linho, que foram marcantes na economia e na identidade rural de S. Pedro de Rates.
Os cereais todos – e não só, como agora, o milho (e este quase só para alimentação animal – que o homem se contenta com mistelas desenxabidas, que do pão de outrora são plásticas imitações). Sim, que no tempo em que esta e outras casas de lavoura tinham uma actividade mais conforme aos ritmos da natureza, de tudo se cultivava, para consumo próprio e alheio: o trigo, a cevada, o centeio, o feijão, o vinho… e tudo era festivamente produzido, temperando-se a dureza do trabalho braçal com os cantares alegres do campo, sobretudo nos rituais das colheitas, onde a interajuda familiar e vicinal, sempre gratuita e recíproca, construía momentos do melhor comunitarismo.
E até os animais tinham mais sorte: respondiam por um nome que quase os tornava da família (e não eram o mecânico número de agora); tinham mesa fresca, vinda diariamente do campo, misturada por vezes com palhas integrais; e, no escasso número da manada, cada exemplar tinha importância e recebia atenção.
O linho a todos vestia: mais fino, para as funções mais distintas ou para os toques mais sensíveis; mais grosseiro, para usos domésticos ou roupa de trabalho.
Era um tempo lento, este que aqui se evoca. Mas era, por isso, um tempo que não deixava ninguém para trás…
LARGO DE SANTO ANTÓNIO
Envolve
a capela do mesmo nome, cuja actual configuração resultou da ampliação, em
finais do séc. XVII, de um primitivo nicho.
Santo António é, no imaginário
religioso de uma comunidade cuja sobrevivência económica está intimamente
associada à agropecuária, o santo protector dos animais – e, nessa função,
frequentemente invocado em múltiplas situações, de que resultam promessas que,
quando satisfeitas, o fazem “presenteado” com objectos e actos de
reconhecimento, entre estes uma festa, de grande adesão popular na região, cujo
registo histórico tem alguns séculos.
MOINHO DE VENTO
A
actividade molineira – concretamente, a relacionada com os moinhos de vento,
que em Rates eram propriedade dos mesmos que no vale tinham moinhos de tracção
hidráulica – está ainda muito presente em inúmeras histórias que só os mais
velhos conhecem, quase todas associadas à noite (que era quando os moinhos
trabalhavam mais – ou trabalhavam melhor) e aos seus medos.
De muitas dessas histórias, alusivas à vida dos moleiros que se ocupavam
nos 8 moinhos que coroavam o Monte de Rates, há registo escrito.
As primeiras referências à existência de moinhos de vento dizem respeito a um engenho de roda horizontal, datado do séc. X e situado na fronteira entre o actual Irão e o Afeganistão. Alguns autores datam-no do séc. VII e originário da própria Pérsia.
Em
Portugal, a primeira alusão a um moinho de vento (sito na região de Lisboa)
data de 1182. A sua existência será, contudo, anterior – embora então, no
território nacional, predominassem os moinhos de água.
O
moinho de vento mais comum em Portugal resultou de uma fusão do moinho oriental
(introduzido na Península Ibérica pelos árabes) com o moinho de vento do norte
da Europa.
Em
Portugal há moinhos de vento de 3 tipos: fixos (de torre) – como o aqui
presente –giratórios e de armação.
Os moinhos de vento fixos, de torre, tinham a sua grande implantação no norte do País. A sua principal característica é a capacidade de rotação do seu tejadilho em função da necessidade de acompanhar a direcção do vento.
Existem duas variantes principais no sistema de tracção do tejadilho: tracção por meio de rabo (como é o caso deste exemplar) e tracção por meio de sarilho interior. O sistema de tracção por meio de rabo tanto pode ser aplicado em tejadilho com rodas (como é o caso presente: as rodas circulam na cavidade aberta no anel de granito que coroa a parede de xisto), como em tejadilho com grade (mais usual na região centro).
A FONTE DO PEDRO
É um espaço mítico da adolescência e da juventude de outros tempos. Dela
se contam histórias fascinantes (a da Moura Encantada é a mais conhecida –
tanto que não havia rapaz que se prezasse que não conseguisse levar outro(s) ao
local, deserto e sombrio, onde, à meia-noite, enquanto se simulava o ritual de
desencantamento da Moura e de abertura do tesouro, graças aos poderes mágicos
do Livro de S. Cipriano, outro(s) comparsa(s), escondido(s), tratava(m) de assustar
o incauto e ingénuo que ali fora levado ao engano).
Lino de Miranda, no conto Encantamento relata-nos a aventura falhada de um grupo.
A FONTE DA GRANJA
É
a mais abundante da freguesia, fornecedora (durante séculos) de água para
consumo humano, lavagem de roupa e rega dos campos. Passa-lhe ao pé o regato
das Cachadas, que é afluente do ribeiro dos Porralhos.
O espaço envolvente oferece
diversidade de situações que o tornam ecologicamente interessante: a linha de
água – outrora refúgio de peixes e de passarada diversa, como de diversa
vegetação ribeirinha, e, no caso, a existência de águas de duas origens
distintas (a da fonte, aparentemente pura, e a do regato, claramente poluída);
um pequeno moinho, movido pela água que, 50 metros a montante, um açude desvia
por uma levada que corre sobranceira ao regato; e tudo coberto por uma ramada, construída
segundo as regras da mais velha tradição local (com diversidade de castas –
entre elas, a americana – e de suportes – esteios de granito e algumas
oliveiras).
AZENHA DO PEGO
("Do Pego" por duas razões: porque se situa no território dos "pegos" – do latim "pelagus", terreno alagado: era/é terra de rega de lima, ou terreno de lameiro, e por isso era por aqui, nestes campos que bordejam o ribeiro dos Porralhos, que outrora se "enriava" ou "alagava" o linho após a sua ripagem, numa operação cujo segredo e técnica vinham de longuíssimo tempo e que tinha como objectivo obter a fermentação da substância péctica do linho para mais fácil separação entre as suas partes fibrosa e lenhosa; e "do pego" também porque esta azenha, construída na primeira metade do século XX, sempre pertenceu à família que, em S. Pedro de Rates, transporta a alcunha “dos Pegos”, exactamente porque tinha as suas propriedades neste território alagado).
A Azenha do Pego, uma construção em L toda exclusivamente erguida em xisto, teve a particularidade de reunir três funções que a tornaram muito rara: moía cereais, serrava madeiras – tudo por tracção hidráulica – e servia de habitação. Foram aqui recuperadas as funções molineira e habitacional.
A água chega à azenha através de uma levada proveniente do ribeiro dos Porralhos. Anexo, a azenha tem um pequeno quintal, coberto por ramada.