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“Fé em Deus” comemorou 20 anos com fim-de-semana repleto de actividades

Póvoa de Varzim, 05.09.2011 - De sexta-feira, 2 de Setembro, a domingo, dia 4, a Biblioteca Municipal assinalou os 20 anos do projecto de recuperação da Lancha Poveira do Alto com um programa vasto que incluiu regatas, conferências, a inauguração de uma exposição e uma sessão de poesia dedicada a Manuel Lopes, um dos grandes responsáveis pela concretização deste projecto.

No primeiro dia de comemorações, a Biblioteca Municipal acolheu o 2º Encontro da Rede Nacional da Cultura do Mar. José Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, e Almirante Bastos Saldanha, em representação da Sociedade de Geografia de Lisboa, deram as boas-vindas aos participantes que assistiram à conferência “A Cultura do Mar e dos Rios”, pela palestrante Inês Amorim, do Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e aos dois painéis de debate – “A sustentabilidade patrimonial das embarcações tradicionais” e “O desafio da apropriação do mar pelos Portugueses”.

A realização deste evento na Póvoa de Varzim, como lembrado na sexta-feira, concretiza uma deliberação do 1º Encontro (16 de Novembro de 2004) para que “a realização do próximo fosse fora de Lisboa, por iniciativa local”. É um regresso à Biblioteca Municipal “Rocha Peixoto” onde, em 1 de Outubro de 2004, por ideia e iniciativa do seu então director, Manuel Lopes, se realizou a primeira sessão de divulgação sobre a Rede Nacional da Cultura do Mar, a que a Sociedade de Geografia de Lisboa anuiu de imediato e a que se seguiram outras sessões em Ílhavo, em Lisboa e em Olhão.

Também na sexta-feira, na Biblioteca Municipal, foi inaugurada a exposição “a vida é assim”, de Rita Rocha. A fotógrafa elaborou um registo etnográfico de excelência do pescador contemporâneo, trabalho que ainda está a realizar. Rita Rocha nasceu na Póvoa de Varzim, em 1978. Em contacto com a fotografia desde muito cedo pelas mãos do pai, que lhe oferece a primeira máquina fotográfica, e sempre ligada às artes na sua contínua formação, licenciou-se em Fotografia pela University of Glamorgan em Cardiff, no Reino Unido, onde viveu nos últimos 6 anos. Até 24 de Setembro poderá visitar esta exposição.

No sábado, o evento deslocou-se até ao mar para a Regata das Embarcações. Neste encontro participaram associações de várias zonas do país e da Galiza, trazendo as suas embarcações, num total de onze embarcações presentes, seis das quais da Galiza, local onde a Lancha Poveira vai muitas vezes para eventos do género. À tarde, teve lugar a Regata das embarcações, onde a Lancha Poveira saiu ao mar, ao comando do Mestre Manuel Agonia. O Mestre lembrou que “é sempre um gosto sair ao mar na Lancha Poveira” e sublinhou a ligação da embarcação a Manuel Lopes: "ele saía sempre na Lancha e no dia que me disse que não podia mais, previ que algo estava mal. Pouco depois faleceu".

Ainda no sábado, ao final da tarde, no Diana Bar, realizou-se a conferência “Mar, Património e Educação”. Sara Vidal Maia, investigadora em Património e Culturas Marítimas; Fátima Claudino, da Rede de Escolas Associadas da UNESCO; Ana Irene Gomes e alunas da Escola Secundária Rocha Peixoto; e Laura Barros, do Agrupamento de Escolas de Aver-o-Mar, foram as convidadas para falar sobre a relevância da interacção entre a escola e a identidade local.

Sara Vidal Maia sublinhou a “ligação entre o passado como perspectiva de futuro” e, para esse efeito, a “grande importância dos museus na preservação da identidade local”. Para a investigadora é “imprescindível salvaguardar o património identitário desta comunidade através do trabalho das suas gentes, momentos de lazer, memórias da infância e espaço físico, social e mitológico”. O património identitário atribui um sentido de localização pessoal aos indivíduos e configura as suas relações sociais, gerando complexos sentimentos de pertença comunitária, que facilitam o envolvimento com os outros. Nas comunidades marítimas, a reconstrução destas complexas relações passa, sobretudo, pela comunicação oral e escrita, que deve ser incentivada por redes educativas e de esclarecimento, que facilitam a transmissão inter-geracional de conhecimentos, revelou Sara Vidal Maia.

Fátima Claudino deixou bem claro o seu objectivo de envolver os jovens em projectos que transmitam valores da prática da cidadania e do saber. Para isso, apresentou um projecto da Escola Dr. Francisco Fernandes Lopes, em Olhão, de preservação do património cultural marítimo. Esta é uma das 59 escolas associadas ao projecto da UNESCO e que seguem os quatro pilares de aprendizagem Delors: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Ana Irene Gomes e quatro alunas da Escola Secundária Rocha Peixoto, vestidas como pescadeiras e tricanas, apresentaram o seu projecto escolar sobre a promoção da Lancha Poveira do Alto “Fé em Deus”. O projecto consistia na elaboração de um folheto divulgativo da embarcação. Depois de várias tentativas, as alunas conseguiram alcançar os objectivos com a colaboração dos elementos da Biblioteca Municipal e o produto final foi distribuído por todos os presentes.  

Laura Barros apresentou o projecto “Brincar com as Palavras”, levado a cabo pelo Agrupamento de Aver-o-Mar com o apoio da autarquia. “Brincar com as Palavras” foi desenvolvido com o objectivo de valorizar a participação das famílias na vida escolar das crianças, bem como a cultura local. O livro ensina lendas, histórias, provérbios, adivinhas e poesias, sempre com a visão dos mais pequeninos, afinal, este projecto foi feito por eles e para eles.

Ainda no sábado, Manuel Lopes, antigo director da Biblioteca Municipal e impulsionador da Lancha Poveira, foi recordado de uma forma muito especial, na sessão In Memoriam – Manuel Lopes. Poemas de David Mourão Ferreira, António Nobre, Joaquim Castro Caldas, entre outros foram lidos por João Rios, acompanhado por Paulo Lemos, na guitarra portuguesa, Tiago Pereira, violino, e José Peixoto, na guitarra - Colectivo Silêncio da Gaveta. Os textos mostraram a quem não privou com Manuel Lopes a sua força e perseverança.

No domingo, o Encontro voltou-se para o mar e as embarcações voltaram a mostrar-se a partir da Marina da Póvoa.


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