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“Literatura: o esforço inédito das palavras” encerra segundo dia de debates

Póvoa de Varzim, 25.02.2010 - De capacete e lanterna na cabeça, Manuel da Silva Ramos surpreendeu a audiência. Afinal, todos estavam ali para ouvir o debate sobre “Literatura: o esforço inédito das palavras”, moderado por Inês Pedrosa, e no qual participavam também J.J. Armas Marcelo, Luís Naves, Pablo Ramos e Paulo Kellerman.

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“Literatura: o esforço inédito das palavras” encerra segundo dia de debates

Póvoa de Varzim, 25.02.2010

Póvoa de Varzim, 25.02.2010 - De capacete e lanterna na cabeça, Manuel da Silva Ramos surpreendeu a audiência. Afinal, todos estavam ali para ouvir o debate sobre “Literatura: o esforço inédito das palavras”, moderado por Inês Pedrosa, e no qual participavam também J.J. Armas Marcelo, Luís Naves, Pablo Ramos e Paulo Kellerman.

Mas Manuel da Silva Ramos era agora mineiro, ou melhor, prospector. E na sua mina, em que já trabalha há muitos anos, “é preciso ter muita imaginação, porque há gente que diz que a mina não existe”. Mesmo assim, o escritor recusa dizer onde ela está, porque também não sabe. É que, explica ele “salto da mina para a vida e pronto”. O corredor, “cheio de material inédito”, é o corredor da “infinita emoção”. “No outro dia apanhei uma palavra de 15 quilates de emoção, era uma das mais belas palavras que já vira”, contou, descrevendo que, na sua mina, existem várias galerias: o da poesia bruta, “que não é difícil”, a galeria da política, onde “o trabalho é escravo mas o meu prazer é enorme”, a galeria da dor, onde transforma e escava “sobre a alegria que vem a seguir”, a galeria, mesmo junto à entrada, “a mais frequentada mas a mais difícil de trabalhar”, a galeria da imaginação, “que me é muito cara” e onde tem “os olhos virados para as coisas invisíveis”, a mina erudita, “a que é mais inimiga dos prospectores. Mata a mina da nossa emoção”…

Uma intervenção criativa a que se seguiu Paulo Kellerman, contista português que avançou ter chegado à conclusão que “talvez o tema esteja errado”, pois, em vez de “o esforço inédito das palavras”, prefere “esforço partilhado das palavras”. Uma alteração que remete, desde logo, para a relação entre escritor e leitor.

“As minhas histórias partem de imagens. Estas revelam indícios”, disse, tentando definir o que é escrever. “Talvez seja olhar a realidade e desmontá-la”, arriscou, acrescentando ainda que, na sua opinião, a Literatura é também a “arte da curiosidade, sobre o que somos, o que sentimos ou até sobre o que poderíamos ser e sentir”. As palavras são assim aquilo que proporciona individualidade ao escritor, “é a palavra que nos distingue”.  

Pablo Ramos contou que começou a escrever ficção “por um fracasso”. De facto, nascido de uma família de músicos, cedo começou a aprender esta arte. Frustrado com os seus pobres resultados, começou a escrever um diário, mas onde descrevia o oposto da sua vida. Assim, Pablo Ramos tinha um futuro extraordinário como músico pela frente, o seu pai era rico e, em vez dos quatro irmãos que tinha na realidade, era filho único. “O que é estranho é que a minha mãe era exactamente igual. E uso todo este contexto para dizer que, para mim, não existe esforço inédito. Existe sim o enorme esforço de espírito do escritor”. Um esforço sem o qual não há Literatura, segundo Pablo Ramos. “A facilidade da palavra não é Literatura”.

J.J. Armas Marcelo já habituou o Correntes ao seu humor. Considerando este um daqueles temas em que tanto se pode dizer nada, como encher inúmeras páginas, o escritor e jornalista espanhol foi contando várias histórias, num crescendo de gargalhas que varreu o Auditório Municipal, como forma de ilustrar o quão complicada é a palavra para o escritor e também as dúvidas que a própria profissão de escritor levanta. Pior isso, quando lhe perguntaram o que fazia respondeu “O meu trabalho é discutir com as palavras”. Um trabalho que obriga a “descobrir o lado secreto das palavras”, um esforço que é marca dos grandes escritores. “Situar as palavras é o esforço de convertê-las em inédito”.

Luís Naves, “agente infiltrado”, como se identificou, atirou a pergunta “Como é que o esforço da escrita é lida pela sociedade?”, encaminhado o debate para o campo de como é que o escritor é visto. “Muito mal”, considerou, lembrando que há mais futebolistas profissionais em Portugal que escritores, uma “classe mal vista” pela sociedade. Mais do que esforço inédito, falou de “sede”, ou melhor, do que considera ser importante para o escritor, apontado logo as vivências. “Os escritores vão melhorando ao longo do tempo, porque as vivências transforma as pessoas. Dou também muita importância à realidade, porque é muito complicada”, afirmou, pois, considera, “se não vivermos as coisas não podemos escrever sobre elas”.

Correntes d’Escritas continua amanhã os debates com uma mesa de manhã, às 10h30, e outras duas à tarde, às 15h00 e às 17h30.

Para saber mais pormenores, visite o portal municipal em www.cm-pvarzim.pt