A Terra Portuguesa – mais de 100 anos depois, a história repete-se
Póvoa de Varzim, 07.12.2009 - Já se passaram mais de 100 anos sobre a primeira edição de A Terra Portuguesa. No entanto, na passada sexta-feira, 4 de Dezembro, data em que se lançou a segunda edição, ficou bem marcada a ideia de que esta obra de Rocha Peixoto mantém, ainda, a sua actualidade.
Reeditado no âmbito
das Comemorações do 1º Centenário da morte de Rocha Peixoto, A Terra Portuguesa é um conjunto de 26
crónicas que o cientista poveiro publicou no jornal “O Primeiro de Janeiro”.
José Macedo Vieira,
Presidente da Câmara Municipal, não deixou de frisar a “actualidade
extraordinária” de A Terra Portuguesa,
da autoria de “um homem enciclopédico”. “A vida é mesmo assim, repete-se”. De
facto, e um pouco à semelhança do que se passa hoje em dia no país, o autarca
notou que as crónicas transmitiam o sentimento de que havia a falta de
entidades que desempenhassem uma política estratégica para o país, “a falta de
homens que interpretassem o desígnio nacional e que tivessem a coragem de o
implementar”.
Recorrendo à sua
experiência profissional como médico, em que o método passa por observar, fazer
o diagnóstico e tratar, Macedo Vieira fez o paralelo com a gestão do país. Mas,
como afirmou, “gerir pessoas é complicado. Somos um país muito complexo, a
nossa genética é muito complicada e quanto mais se estuda, mais complicada
fica”, defendeu, recordando que os portugueses são uma mistura de vários povos,
como celtas, visigodos, romanos, árabes. “Daí a nossa propensão natural para a
ingovernabilidade. Falta-nos o desígnio, o objectivo, o rumo e falta-nos quem
nos interprete isto”. Assim, o autarca considera que “o pensamento de Rocha
Peixoto é actual e resistiu à prova do tempo da História”. E, como afirmou,
observar e diagnosticar qualquer um consegue. Mas só os grandes líderes têm a
capacidade de implementar o ‘tratamento’.
João Francisco Marques, Presidente da Comissão
Organizadora da Comemoração do 1º Centenário da morte de Rocha Peixoto,
explicou que o lançamento desta obra deveria ter ocorrido no fecho das
comemorações. No entanto, “incidentes vários levaram-nos a adiar
esse fecho para mais tarde, incluindo ele a inauguração da estátua de Rocha
Peixoto, junto da Biblioteca Municipal, e uma exposição biobibliográfica sobre
este grande poveiro e grande cientista”.
Elogiando a
dedicação da Câmara Municipal, que “tendo há anos feito grandes celebrações a
propósito do aniversário sobre o 1º centenário do nascimento, decidiu não
deixar passar em silêncio esta outra data, a sua morte”, João Francisco Marques
explicou que A Terra Portuguesa
“dedica-se a contemplar a terra, isto é, o solo onde nós assentamos, desde o
nascimento à morte, esta metrópole que é sujeita a tanto estudo e não menos
controvérsia”. Situando temporalmente as crónicas, esclareceu que estas foram
escritas em tempo de crise. “Estávamos em finais do século XIX, a recuperar do Ultimatum, com dois partidos em
rotativismo – o Partido Regenerador e o Partido Progressista”. Esta crise,
considerou, devia-se ao facto de faltarem “três respostas essenciais a um país
que clamava por soluções urgentes: o problema económico, o problema do ensino e
o problema energético”. Contrariedades que ainda hoje se fazem sentir no nosso
país.
“Estas são crónicas breves mas sempre
variadas”, adjectivou João Francisco Marques, “e justifica Rocha Peixoto a sua
reunião dizendo que ‘a desconexidade dos temas podem ser vistos pela unidade da
intenção que a eles presidiu o seu tratamento’”. E como defendeu, “é uma obra
didáctica que analisa e indica soluções. É um livro político, mas de um homem
voltado para a realidade do seu país”.
Rocha Peixoto, ilustre
poveiro multifacetado, que no seu caminho profissional foi arqueólogo,
etnólogo, bibliotecário, naturalista, entre muitos outros, nasceu na Póvoa de
Varzim a 18 de Maio de 1866 e faleceu em Matosinhos, a 2 de Maio de 1909, a poucos dias de
completar 43 anos. A Terra Portuguesa, cuja reedição faz parte da
colecção “Na Linha do Horizonte – Biblioteca Poveira”, com o número 23, foi
lançada, pela primeira vez, em 1897.
A Comemoração do 1º Centenário da morte de Rocha Peixoto tem
um site próprio na internet, onde pode consultar o
programa e também aceder a documentos, livros e fotografias que fazem parte do
acervo de Rocha Peixoto.