«Em torno de Rui Vieira Nery: Indignados e Capitalismo Liberal nas vésperas da guerra». Musicólogo inaugurou Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim.
Póvoa de Varzim, 11.07.02011 - O programa do 33º Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim assinala o centenário da morte de Gustav Mahler.
Fazendo jus a esta efeméride e porque a actual situação do país assim o dita, Rui Vieira Nery dedicou a conferência de abertura a um “período da história da música em crise”, em que Mahler foi um “profeta do fim de um tempo e arauto de outro”.
O musicólogo referiu-se aos finais do século XIX e inícios do século XX, período que, a nível cultural, ficou marcado por uma “vontade de inovar porque há consciência de que algo falhou”. Na segunda metade do século XIX, do ponto de vista musical, “os compositores achavam que deviam ser um factor de progresso e eram portadores de uma verdade que legitimava tudo”. A manifestação mais clara das linhas de inovação foi a ópera de Wagner, que denominou esta postura de “música do futuro”, e apresentou algo de muito diferente daquilo a que estavam habituados, uma espécie de melodia ininterrupta, infinita. Destaque, nesta época, para a sinfonia de Bruckner, na qual não existe propriamente um desenho melódico, há como que um novelo que se vai desenrolando. É uma espécie de viagem em que vamos avançando sem sabermos onde chegamos, que Nery define como uma arte que imita a vida na procura do infinito.
Para além destes, outros compositores desafiaram as convenções existentes com ideais de ruptura e inovação numa época marcada por vanguardas mas nem toda a música deste período é assim. Verificou-se uma mudança feita pelo diálogo entre o lado vanguardista e os compositores mais próximos da tradição romântica do século XIX.
Sobre Mahler, Nery afirmou que “foi uma espécie de segredo bem guardado porque durante muito tempo foi conhecido como maestro e só na segunda metade do século XX é reconhecido como compositor”. Em 1897, Mahler converteu-se ao Catolocismo porque além de ser conveniente para sua ascensão profissional, o Cristianismo atraía-o pelo facto de oferecer uma promessa de redenção, após uma fase de sofrimentos. É, nesta altura, nomeado para dirigir a Ópera da Corte de Viena. A partir do momento em que vai para Viena, Mahler só compõe no Verão porque nos restantes meses tinha a agenda preenchida como maestro. O conjunto do seu trabalho artístico é formado basicamente de canções e nove sinfonias completas (Mahler chegou a trabalhar numa décima, mas não conseguiu terminá-la), sendo que as sinfonias são as obras que mais se destacam na sua produção musical. É possível identificar em Mahler várias facetas de modernidade: busca elementos provocatórios das músicas populares; recorre à imagem rústica como um elemento de ruptura estética assumida; interessava-se por textos do romanceiro popular num regresso às raízes. O tema da morte também está presente na obra de Mahler e passagens alegres dão lugar a outras trágicas e de desespero, que reflectem a vida atribulada do próprio compositor, nomeadamente a morte da filha. As sinfonias são complexas, enormes, tanto na duração, quanto na quantidade de músicos necessários para sua execução parecendo querer representar o mundo. A voz humana é usada na 2ª, 3ª, 4ª e 8ª sinfonias, sendo que esta última se destacou porque requeria mais de mil músicos, entre orquestra, solistas e um coral imenso, uma massa orquestral e vocal esmagadora transmitindo uma vontade de abraçar o mistério da criação e da existência. Grande parte da sua obra dá uma sugestão de procura de plenitude e visão de eternidade para a vida.
Sobre a conferência de Rui Vieira Nery, José Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal, definiu-a como uma “magistral lição de música, mas não só, porque na sua exposição, o musicólogo ensinou história, sociologia, literatura, antropologia”, levando o autarca a apelidá-lo de “mestre”. Afirmando que “não foi inocentemente que Nery escolheu como tema da sua conferência «Em torno de Gustav Mahler: Vanguardas e Romantismo Final nas Vésperas da Grande Guerra», o autarca adaptou o título: «Em torno de Rui Vieira Nery: Indignados e Capitalismo Liberal nas vésperas da guerra».
Este foi o arranque da Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim que já apresentou dois concertos durante o fim-de-semana e amanhã, 12 de Julho, convida a assistir à actuação de dois grandes solistas contemporâneos.
Acompanhe o evento no portal municipal.