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António Lobo Antunes apresentou o seu mais recente livro, "Meu Nome é Legião"

Póvoa de Varzim, 29.11.2007 - Lobo Antunes recosta-se na cadeira, acende o primeiro cigarro da noite, percorre lentamente a plateia, completamente preenchida, com os olhos e ensaia um início: "Eu chamo-me António e gosto de escrever livros".

É a primeira frase da noite, certamente não tão difícil como as que procura para começar cada livro, cada novo capítulo de cada livro. A confissão é dele: “Escrevo lentamente e com grande dificuldade. Até acertar com a “cor” de um livro são sete ou oito capítulos; até ele se tornar independente e livre de mim…”

António Lobo Antunes esteve ontem à noite na Biblioteca Municipal para apresentar a sua mais recente publicação, “O Meu Nome é Legião”, mas talvez “apresentar” não seja o termo adequado porque o autor pouco falou do livro, seja porque prefere falar de uma infinidade de outras coisas, seja porque, como ele próprio explicou: “me esqueço do que escrevo. Quando termino um livro, esqueço-o. Lembro-me da escrita, da maneira que vivi enquanto o escrevi, do que senti, mas não do que escrevi.” A conversa, que se prolongou até à meia-noite, porque ouvir Lobo Antunes é um convite a uma longa noite de palavras, passou por muitas coisas – a família, a adolescência, a figura do pai, a literatura, a morte, o seu passado enquanto médico, a importância da Mulher, a vida, enfim. Essa vida que António Lobo Antunes pretende aprisionar entre as capas de um livro.

Afirmando-se mais interessado nas palavras e no seu efeito do que em contar histórias, António Lobo Antunes reflectiu sobre a sua forma muito particular de escrever e sobre o que pretende de cada nova obra, começando logo por dizer que um bom livro não se faz com ideias, mas sim com palavras. “Aliás”- acrescentou com humor – “quando alguém me diz que tem uma boa ideia para escrever um livro, é certo que vai sair mal”. Trabalhando as palavras ou esperando por elas - que às vezes tarda a vir a palavra certa para o que se quer exprimir – e tentando compor o “som do livro”, como ele próprio lhe chamou, António Lobo Antunes lembrou também a importante relação que a obra deve estabelecer com o leitor e vice-versa. Porque ler é um acto tão criativo como a escrita e porque exige a participação activa do leitor, o autor afirmou que os seus são “livros para os leitores escreverem”, acrescentando que a sua intenção é que “o leitor se meta dentro do livro, porque eu não escrevo para o cativar”.

E quanto a “O Meu nome é Legião”, Lobo Antunes revelou que, só no final do livro, e como acontece com todos os outros que escreve, escolheu o título e que este lhe surgiu numa passagem do Evangelho de São Lucas. Neste seu romance, com recurso à linguagem de um relatório policial, Lobo Antunes relata o quotidiano de um bando, oriundo de uma zona a que chama simplesmente Bairro e que evoca as zonas periféricas das grandes cidades e o leitor percorre, como se fosse sua, a vida de pessoas que vivem na pior parte do pior sítio do mundo.

Depois de aqui ter apresentado, em Março do ano passado, o “Terceiro Livro de Crónicas”, António Lobo Antunes regressou ontem à Biblioteca Municipal para partilhar com os leitores este seu novo romance, voltando a encher o átrio deste espaço, transformado em sala de estar, com um anfitrião que povoou a noite de histórias, apesar de tão avesso a elas na narrativa dos seus livros.

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António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria, tendo exercido, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas”, seguindo-se, em 1980, “Conhecimento do Inferno”. Estas primeiras obras são marcadamente biográficas, estão muito ligadas ao contexto da guerra colonial e imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional. Todo o seu trabalho literário tem, ao longo dos anos, sido objecto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e o número de distinções literárias, nacionais e internacionais, é vasto: conquistou duas vezes, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa, o Prémio Europeu de Literatura (Áustria), o Prémio Ovídio (Roménia), o  Prémio Internacional de Literatura da União Latina (Roma), o Prémio  Rosalía de Castro (Galiza), o Prémio Jerusalém de Literatura, o Prémio Iberoamericano das Letras José Donoso e o Prémio Camões, entre outros.           

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