Bibliotecas públicas – vinte anos depois…
Póvoa de Varzim, 2007.11.30 - O encerramento das Comemorações dos 15 anos do actual edifício da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto é hoje celebrado com uma reflexão e debate em torno de 20 anos de leitores e bibliotecas.
São 20 anos após a criação da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (1987) que não poderiam ser recordados sem que viesse à memória de todos os presentes Manuel Lopes que, como referiu Maria José Moura, “contra todas as evidências, está connosco aqui hoje” e este encontro é “a materialização de um sonho desse meu amigo”.
Na sessão de abertura, Luís Diamantino, vereador do Pelouro da Cultura, não pode deixar de referir, com notória satisfação, que comparativamente aos resultados apresentados em estudos a nível nacional sobre a leitura, a Póvoa de Varzim tem números seguramente mais favoráveis, “Basta frequentar a biblioteca; basta passar pela sua extensão no Diana-Bar; basta visitar as filhas mais distantes (pólos de leitura); basta lembrar as bibliotecas de praia, porque até no areal os livros são boa companhia; basta olhar para a Feira do Livro; basta lembrar o Correntes d’Escritas. Basta lembrar isto, tudo isto. Porque é de todas estas iniciativas, que se articulam e distribuem ao longo de todo o ano, que se constrói, entre nós, o milagre da multiplicação dos leitores”. Para além disso, Luís Diamantino afirmou que a política de incentivo à leitura do município passa também pelo apoio aos autores locais, quer através edição das suas obras quer coeditando ou adquirindo um número significativo de exemplares. “Só este ano participámos em 15 iniciativas editoriais (…). A colecção “Biblioteca Poveira – Na Linha do Horizonte”, que já regista 17 títulos, é também motivo de orgulho para o município” acrescentou o vereador. Luís Diamantino concluiu recorrendo às palavras do grande intelectual brasileiro Prof Edson Nery da Fonseca, “uma biblioteca deverá ser sempre uma viva assembleia de leitores”.
À assembleia de bibliotecários e amantes dos livros e da leitura reunidos esta manhã na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, a directora da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, Paula Morão, deixou uma palavra de apreço e reconhecimento pelo trabalho que têm desenvolvido em prol das bibliotecas públicas, dando especial relevo à biblioteca da Póvoa, “uma estrutura exemplar tanto pela qualidade como pela quantidade de actividades que dinamiza”.
Num painel dedicado aos 20 anos de mudança e inovação nas bibliotecas públicas, Henrique Barreto Nunes referiu-se à biblioteca como sendo “o único lugar do mundo onde todos os cidadãos independentemente do sua raça, religião, idade, sexo ou grau académico, podem ler livros, revistas, jornais, ver filmes, aceder à Internet, consultar o seu email, assistir a espectáculos culturais, dispor de formação,…”. A biblioteca municipal cada vez mais é um serviço público gratuito, de base e de massas, acolhendo os marginalizados e culturalmente excluídos de outros espaços públicos. Apesar de reconhecer que é urgente criar normas e estabelecerem-se linhas de orientação que definam os direitos e as responsabilidades do município para o efectivo e necessário desenvolvimento das bibliotecas e dos serviços que prestam à comunidade, o bibliotecário confessou que acredita na biblioteca como uma forma de intervir, de constante provocação, um local permanente de sedução e conquista. Enfim, um amor para toda a vida”.
A manhã terminou com a projecção de um vídeo in Memorium a Manuel Lopes, figura única com uma acção cultural decisiva na Póvoa de Varzim e de reconhecida importância no mundo dos livros e das bibliotecas.
Desafios para o futuro das bibliotecas públicas
Foi em torno do vocábulo “desafios” que decorreu o debate durante a tarde de hoje, na Biblioteca Municipal. O dia foi dedicado à reflexão sobre duas décadas de existência da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, uma iniciativa organizada pela Biblioteca Municipal Rocha Peixoto no âmbito das Comemorações dos 15 anos de existência do actual edifício da biblioteca.
Foram apresentados alguns olhares sobre os desafios da leitura pública que perspectivam um combate à info-exclusão e uma acção preponderante das bibliotecas públicas na luta contra a marginalização numa sociedade do conhecimento e da informação. A este propósito, Isabel Sousa lançou a questão “Se ler é poder, para quem e até quando?”.
Sobre as perspectivas e desafios para o futuro das bibliotecas públicas portuguesas, José António Calixto referiu seis pontos essenciais: os recursos da informação; as tecnologias de informação e comunicação (TIC); os recursos humanos; a investigação e produção teórica; o financiamento, gestão e legislação e, por último, a cooperação. A nível de recursos de informação, o desafio apresentado foi a duplicação de livros disponíveis nas bibliotecas públicas portuguesas visto que, em 1997, Portugal (0,9 livros por mil habitantes) se encontrava muito abaixo da média da União Europeia (2 livros por mil habitantes). Também no que se refere a recursos humanos, o nosso país apresenta médias abaixo de metade dos restantes países europeus e torna-se urgente investir em novos perfis profissionais e na formação permanente de quem trabalha na área da biblioteconomia. Quanto à investigação e produção teórica, José António Calixto alertou para a assunção pelos organismos do Estado e também pelas autarquias locais, da responsabilidade e financiamento de estudos que contribuam positivamente para avaliar o trabalho desenvolvido pelas bibliotecas públicas e possibilitar o investimento em áreas mais carentes de reflexão e acção. Associado a este aspecto, o bibliotecário afirmou que Portugal se encontra entre os países europeus que menos investem nas bibliotecas públicas (menos dez mil euros por mil habitantes) e é necessário dotá-las de maior autonomia em relação ao poder local e central.
Uma ideia comummente partilhada pelos investigadores da área e recomendada, aliás, no Manifesto da UNESCO é que a biblioteca pública “deve ser objecto de uma legislação específica” e “garantir um certo padrão de serviços”. Como referiu Manuela Barreto Nunes, “precisamos urgentemente de uma Lei das Bibliotecas”.
Urgente também é cooperar e “cooperação significa a partilha de trabalho, de competências e de dinheiro” e devemos estar conscientes que “a cooperação exige um investimento, mas a não cooperação resulta num desperdício de recursos”, lembrou José António Calixto. Teresa Calçada partilhou esta necessidade de cooperação e afirmou que “hoje o desafio é entendermos que existe uma biblioteca universal, com o mesmo catálogo, os mesmos documentos, uma rede de conhecimento e informação que há duas décadas surgiu entre nós” e “grande desafio é criar leitores que não possam prescindir da informação e do conhecimento”, acrescentou.
José Afonso Furtado lançou um olhar sobre os desafios da leitura pública, incidindo, essencialmente, na diversificação das práticas de leitura que surgiram como consequência da multiplicação da oferta em formato digital ocorrida nos últimos anos. “A relação com a leitura é, cada vez mais, uma relação efémera e instrumental; lê-se apenas o que nos aparece à frente”, afirmou José Afonso Furtado designando este fenómeno de “tendência da aceleração da leitura”.