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Em busca da palavra exacta na penúltima mesa do Correntes, esta manhã

Póvoa de Varzim, 26.02.2011 - "Não há palavras exactas" mas há mesas exactas. Assim foi a 8ª Mesa do Correntes d’Escritas que esta manhã encheu o Auditório Municipal.

Moderada por Onésimo Teotónio Almeida, a conversa a partir do verso de Margarida Ferra contou com a participação de José Manuel Fajardo, Kirmen Uribe, Nuno Crato, Pedro Vieira, Raquel Ochoa e valter hugo mãe.

José Manuel Fajardo começou a sua intervenção repetindo a expressão “eu amo-te” em vários idiomas e justificando que “poucas palavras poderiam servir melhor o tema da mesa”.  Para o escritor espanhol, “os seres humanos constroem-se com palavras e sem elas éramos incapazes de sonhar. As palavras dão ordem ao mundo, são obreiras do mundo”. José Manuel Fajardo afirmou ainda que o ser humano tem uma obsessão pelas palavras numa busca da verdade e da perfeição que nos caracteriza.

Mas, “as palavras não são mais do que moldes vazios e designam algo que não está dentro delas. No seu vazio interior, está a sua força”, referiu. O escritor terminou dizendo que “a escrita é uma metáfora da humanidade” porque tal como as palavras só têm sentido inseridas numa frase, também o ser humano necessita de um contexto para a sua vida fazer sentido.

Kirmen Uribe, depois de ler um poema sobre o nexo entre as palavras e a dificuldade do escritor em criar com palavras encontrando as exactas, afirmou que “a palavra é o instrumento central do escritor”.

O vencedor do Prémio Nacional de Narrativa 2009, em Espanha, confessou que em criança falava pouco porque tinha a obsessão em procurar as palavras exactas para comunicar e, quando começou a escrever estava apaixonado pelas palavras. Quando se assumiu como escritor, “as palavras deixaram de ser sua amante e passaram a ser seu amor, como as pessoas quando estão apaixonadas”.  

Para Kirmen Uribe, “o que define a literatura é o estilo”, ou seja, o trabalho do escritor não é contar a história mas a maneira como conta, criando um nexo entre as palavras.

E, como referiu o moderador, ninguém melhor que um matemático para falar de palavras exactas e Nuno Crato confirmou que “a única relação que tenho com a palavra é tentar utilizar-me dela do modo mais exacto possível”. A que acrescentou “desespero pelas palavras serem ambíguas” e o “desespero total” consuma-se quando as pessoas inventam palavras novas importando-as de outras línguas.

O matemático revelou que quando escreve tenta ser o mais claro possível mas “há palavras que para o técnico tem um significado preciso e para o público tem outro” e, por isso, procura usar palavras que, mesmo não sendo cientificamente exactas, todos percebam. Esse é o drama do divulgador científico, “não querer manipular os termos técnicos “ e como tal “custa-me imenso que não haja palavras exactas”. 

Nuno Crato concluiu lembrando que até a “representação do número na nossa cabeça só é possível associada a uma palavra”.

Pedro Vieira fez a sua abordagem ao tema através da projecção de um vídeo composto por diversas opiniões ao verso “Não há palavras exactas”. As várias abordagens e diferentes interpretações que a expressão sugere foram trabalhadas e apresentadas pelo ilustrador de modo humorístico causando risos entre o público.

Raquel Ochoa, num discurso alternado entre dois idiomas, castelhano e português, referindo que “a culpa é do Tratado de Tordesilhas”. Mesmo considerando que as palavras exactas não existem, a escritora revelou não saber porque as palavras em castelhano lhe parecem mais exactas do que em português.

Para Raquel Ochoa, “a única palavra exacta é o silêncio”. E a propósito, citou o provérbio “quem sabe, não fala. Quem fala, não sabe”.

valter hugo mãe contou alguns episódios da sua vida em que as palavras que lhe disseram ou o próprio disse não foram as mais exactas. A primeira história partilhada passou-se aos 24 anos quando numa sessão de poesia o chamaram para declamar do seguinte modo “valter hugo vai ler acompanhado da mãe”.

Provocando inúmeras gargalhadas na plateia, o escritor vencedor do Prémio José Saramago 2006 narrou situações vividas não só na cidade onde mora, Vila do Conde, mas também em diversos sítios do país e no estrangeiro, algumas na Europa e outras fora dela como Brasil ou Tunísia.

Até os títulos dos seus livros serviram para exemplificar que “não há palavras exactas”, pois a máquina de fazer espanhóis (2010) já foi designada de “a fábrica de fazer cachecóis” e o apocalipse dos trabalhadores (2008) foi chamado “o atentado dos trabalhadores”.

Mesmo terminando hoje, o Correntes d’Escritas propõe mais uma mesa para esta tarde, seguida da cerimónia de encerramento do evento.


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