Lancha Poveira largou vela na Biblioteca Municipal. Comemorações do Dia Nacional do Mar recordam a embarcação poveira
Póvoa de Varzim, 16.11.2007 - "Dia de luz/ Festa de sol/ E o barquinho a deslizar/ No macio azul do mar (…)" – os primeiros versos deste velhinho tema de bossa nova (composição de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli) vêm à memória, à medida que as crianças se espalham, deitadas, pela sala infantil da Biblioteca, pintando, apoiadas nos cotovelos, as suas lanchas poveiras, cheias de cor, algumas acompanhadas pelo sol, pelas gaivotas e pelas ondas do mar.
Preocupadas em reproduzir o mais fielmente possível o barco, as crianças usam moldes de cartão e passam para o papel os contornos do desenho que ilustra o tema de uma conversa que preencheu a manhã – a lancha poveira, a sua história, a forma como era construída, para que servia e como nela trabalhavam o mestre e os tripulantes. Como hoje se assinala o Dia Nacional do Mar, a Biblioteca Municipal decidiu, uma vez mais, assinalar a data. E, numa terra de mar, porque não lembrar esta embarcação única, que já não navega e da qual resta apenas uma réplica, em tamanho natural? E, se a lancha poveira já não existe, é imperativo passar o legado da sua memória às novas gerações, para que não esqueçam esta importante peça do património local, indissociável da vida e da história da comunidade piscatória.
A Biblioteca preparou, então, um dia inteiramente dedicado a este tema. De manhã, depois da projecção de excertos de um filme sobre a lancha poveira, em que se mostrava a forma como era construída e como navegava e como se processava o trabalho a bordo, as crianças do primeiro ano da Escola nº 3 do Desterro tiveram o privilégio de ouvir os testemunhos de José Flores, do Museu Municipal, que falou um pouco da história da embarcação, e dos tripulantes Abraão, com quem treinaram o “Ala-Arriba”, e Victor Castro, com quem aprenderam o que era uma poita, onde ficam a proa e a popa e como se veste um colete salva-vidas. Os remos, a peça mais detestada pelos tripulantes, porque obrigava ao uso de força quando não havia vento, as velas, o mastro, as pás de madeira para retirar a água que se acumulava no interior da lancha, as vergas, o aparelho para puxar as redes para bordo, foram outras das peças mostradas às crianças, por este tripulante da lancha, que explicou a um elemento do grupo de utentes do MAPADI, que entretanto se juntou ao grupo, que desde jovem que era pescador, mas que a sua paixão era fazer parte da tripulação desta embarcação, sonho que conseguiu concretizar.
De tarde, prossegue a conversa em torno da lancha, mas com outros convidados. A Escola nº 3 do Desterro continua a participar, agora com três turmas de diferentes níveis de ensino e, para falar com as crianças, estarão o mestre Agonia e o tripulante Peixoto, para quem a lancha poveira não tem segredos.
Com estas actividades, que envolveram a participação de perto de duas centenas de crianças, e com o lançamento, logo à noite, do livro "Mares Poveiros: histórias, ideias e estratégias de pescadores da Póvoa de Varzim,” de Luís Martins, que será o nº 17 da colecção "Na linha do horizonte - Biblioteca Poveira, a Biblioteca Municipal navegou hoje pelas histórias do mar da Póvoa.
Anualmente, a Sociedade de Geografia de Lisboa procura mobilizar os municípios portugueses para as comemorações do Dia Nacional do Mar, dia institucionalizado por resolução do Conselho de Ministros, e que é comemorado a 16 de Novembro. Este ano, a Sociedade de Geografia adoptou “As comunidades ribeirinhas e o desenvolvimento local” como tema das celebrações, em reconhecimento da importância do âmbito local no desenvolvimento sustentável das actividades marítimas.
A Biblioteca Municipal vem participando regularmente nestas comemorações, tendo mesmo sido escolhida em 2006 para ser o posto nacional de aposição do carimbo comemorativo dedicado à lancha poveira, e, por esse motivo, estabeleceu como objectivo para as comemorações de 2007 promover o conhecimento da história da comunidade piscatória, destacando a lancha poveira.