Festival Músicas do Mar – mais uma iniciativa de sucesso para a Póvoa
Póvoa de Varzim, 02.09.2007 - Uma pessoa quase descola da realidade enquanto se deixa levar no crescendo das notas de um instrumento ou de uma voz com talento, porque o talento pode ter essa fantástica capacidade de nos alienar, voluntariamente.
E é a essa “alienação” colectiva que se tem assistido, desde quinta-feira, na Póvoa de Varzim nesta que é a primeira edição do Festival Músicas do Mar. Num crescendo de público, que desde a primeira noite tem acompanhado fielmente os concertos, o Festival afirma-se nessa raiz sólida do talento e da qualidade de todos os grupos que por aqui têm passado.
Se, na quinta-feira, quando tudo começou, ainda havia quem fosse só para saber o que era, afinal, o Músicas do Mar, hoje, quando se entra no último dia, é mais do que seguro dizer que o festival agarrou completamente o seu público, que ninguém conseguiu resistir a dar um pezinho de dança no Largo do Passeio Alegre ou a entrar a fundo na festa, no Auditório da Lota, noite dentro, com os dj´s convidados, ou mesmo a deixar-se levar pela alegria e pela pantomima dos concertos de rua.
Ontem, ou melhor, hoje, já muito de madrugada, o trio de dj´s Bailarico Sofisticado, transformou o Auditório da Lota, no interior do Porto de Pesca, numa discoteca ao ar livre e a noite, surpreendentemente morna para este início de Setembro, ajudou a prolongar a festa que já tinha começado bem antes, perto das 18h30, com a actuação de rua dos Anónima Nuvolari. O grupo de músicos italianos, residentes em Portugal já há vários anos, chegou à Esplanada do Carvalhido com os seus instrumentos e a música logo chamou quem por ali ia passando. Impossível não parar para ficar a ouvir histórias burlescas cantadas na voz rouca do acordeonista e deixar-se levar pela teatralidade dos artistas, que se envolviam o público que ali estava e até mesmo com os que ouviam das janelas dos prédios vizinhos. Daqui, o grupo passou para o Largo David Alves, onde o concerto terminou já muito perto das 20h00.
Uma hora mais tarde, as atenções viraram-se para o Diana Bar, onde se estrearam os argentinos Escalandrum. O concerto deste grupo, liderado por “Pipi” Piazzolla, neto de Astor Piazzolla, foi uma estreia absoluta em solo europeu. A Póvoa teve, pois, o privilégio de os receber e de ser o primeiro palco em que actuaram, deste lado do Atlântico. Seis músicos de excelente qualidade. Músicas originais, compostas pela banda e uma entrega absoluta ao público fizeram deste concerto de jazz mais um dos momentos memoráveis do Festival. O Diana Bar, cheio, reconheceu, de pé, o excelente espectáculo e ainda houve tempo para saudar os músicos pessoalmente, no final, que uma das vantagens deste espaço é o palco ser ao nível do público na atmosfera intimista de um café circular.
E
foi só tempo de sair e atravessar a rua, porque do outro lado, no Largo do
Passeio Alegre, num palco preparado para grandes concertos, já aguardavam os
Eddie, para tocarem o seu misto de rock, frevo, samba, reggae e toda uma
mistura de outros estilos que se fundem numa música que se esquiva a
classificações estáticas. Com enorme energia e alegria, os brasileiros, vindos
de Olinda, em Pernambuco, trouxeram uma música de ritmo contagiante, com letras
despretensiosas e tão da realidade do dia-a-dia, como aquela sobre o desejo das
pessoas de viverem a vida de outras pessoas e de afinal, essas “outras pessoas”
quererem, também elas, viver outras vidas, ou as histórias de amor que acabam
assim”quando o teu sorriso se cansar da minha voz”. Já era meia-noite quando o
público os deixou, finalmente, partir.
Hoje
entra-se no último dia. Os portugueses Kumpania Algazarra saem à rua às 18h30,
começando a sua actuação na Esplanada do Carvalhido e passando depois para o
Largo do Passeio Alegre, na zona das esplanadas. À noite, no palco do Passeio
Alegre, actuam os La Troba Kung-Fú, grupo oriundo de Barcelona, que traz um som
bem diferente, em que fundem a rumba catalã, o reggae, a salsa e até os blues…
ousados e diferentes.
| Escalandrum | Eddie |
E, enquanto se aguarda por estes concertos de encerramento, podemos ainda lembrar os sons quentes e envolventes da guitarra de Joel Xavier, que abriu o Festival, na quinta-feira, a raiz africana do ritmo contagiante do baterista Tony Allen e da sua banda, que actuaram nessa mesma noite, num espectáculo que trouxe até à Póvoa muitos dos seus admiradores incondicionais, que não é todos os dias que um músico destes actua no nosso país. Quanto a sexta-feira, obrigatório também lembrar a brilhante actuação dos O´Questrada. Grupo português liderado pela extraordinária voz, expressividade e teatralidade de Miranda, mas onde todos os músicos sobressaem pelo talento como tocam instrumentos tão estranhos como a “contra-bacia” ou a guitarra que é portuguesa, mas que toca todo o tipo de música, à portuguesa, claro. A noite prosseguiu com os sons bem mais melódicos de Alkinoos Ioannidis, que trouxe a música grega ao palco do Passeio Alegre. Mais um estreante em Portugal e que conseguiu também captar o público, rendido à beleza de sons tão poucas vezes escutados por cá. Sexta-feira chegou ao fim com o apelo à dança, no Auditório da Lota, com os dj´s da Antena 3, Raquel Bulha e Álvaro Costa.
E é desta combinação de talento e qualidade dos grupos que compõem o programa e da variedade de propostas sonoras que, em tão curto espaço de tempo, se colocou em três palcos da cidade, que se faz o sucesso do Festival Músicas do Mar. Se, inicialmente, se dizia que este era o ano zero, é mais do que seguro agora dizer que este é, na realidade, o número um de uma série de que se espera e se quer longa. Quem ainda não assistiu, tem hoje a última oportunidade de apanhar a última onda destas Músicas do Mar.
Uma organização da Câmara Municipal, inserida no programa AnimaPóvoa, com o apoio do Turismo de Portugal.