o apocalipse dos trabalhadores, novo livro de valter hugo mãe
Póvoa de Varzim, 10.11.2008 - “Venho da poesia e, subitamente, aparecem os romances” – pela forma como valter hugo mãe fala, parece fácil, como se a escrita fosse o exercício simples e concluído de aprisionar uma história entre as capas de um livro. Mas não é. O autor sabe que não é, os leitores sabem que não é, talvez por isso seja tão tentador assistir à apresentação de uma nova obra.
o apocalipse dos trabalhadores, o mais recente livro de valter hugo mãe, já vai na segunda edição, tem três meses de vida e, como confessou o autor, “começo agora a ficar curioso sobre o que acham as pessoas que o leram”. A apresentação foi feita no Diana Bar, na passada sexta-feira à noite, perante uma plateia recheada.
A partir das histórias de vida das personagens, de onde sobressai a mulher-a-dias, maria da graça, se aborda a vida de um país “atrapalhado”, no dizer do autor, que aprende a lidar com a realidade da emigração e a combater o fenómeno de rejeição dos emigrantes. Portugal, o país cuja maior cidade, em número de habitantes é Paris, onde vive mais de um milhão de portugueses, tem, segundo valter hugo mãe, de aprender a não rejeitar os que aqui procuram realizar os seus sonhos, pois esses actos de incompreensão são uma forma de autorizar a rejeição das nossas próprias comunidades no estrangeiro. Um apocalipse dos trabalhadores adocicado por histórias de amor, porque, como confessa o autor, “eu sou um pouco piegas e estas podem ser duras histórias de vida, mas são pontuadas pelo açúcar das relações amorosas, porque nas dificuldades da vida há sempre lugar para algo de bom”. E talvez seja por isso, como explica ainda o autor, que “dos três livros que escrevi, seja este o que nos deixa mais apaziguados, mesmo tendo a palavra apocalipse no título”.
Nascido em Angola, de onde saiu ainda muito pequeno, filho de pais naturais de Guimarães, que passavam as férias na Póvoa, com os avós em Fafe, onde viveu alguns anos depois do regresso a Portugal, e depois radicado em Vila do Conde, onde reside, valter hugo mãe encontra nestas andanças da vida a explicação para o seu interesse pelo tema da emigração, presente neste livro, e pela constatação de que uma pessoa se pode construir em diferentes realidades, enriquecendo-se e recriando-se nas várias culturas com que contacta.
E, no final, fica o lugar ao optimismo que valter hugo mãe diz não perder: “apesar de tudo, eu acredito que este ainda vai ser um planeta habitado por pessoas boas, digo-o a sério e com convicção, mas ninguém acredita em mim….”
valter hugo mãe foi o vencedor do Prémio José Saramago, em 2006, com o romance o remorso de baltazar serapião.