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Poesia: a bem dita e a mal dita

Póvoa de Varzim, 15.02.2008 - Moderada por Luís Machado, com a participação de Filipa leal, Janet Nuñez, Jorge Sousa Braga e Teresa Rita Lopes, a mesa “Poesia: a bem dita e a mal dita” prestava-se a levar os participantes por vários caminhos.

Desde logo, e para quem ouve, as diferentes interpretações do bem dita, ou bendita, mal dita, ou maldita. Interpretações essas que remetem para o aspecto sonoro da poesia, para a importância da forma como ela é dita e assim transmitida a quem a escuta, em vez de a ler. Portanto, se escrever poesia não é fácil, dizê-la é, para muitos, também uma tarefa difícil, podendo mesmo interferir na forma como ela é recebida e apreciada por quem a ouve, e foi por aqui que partiu a abordagem do tema em debate.

Habituada a ler em público poesia, Filipa Leal analisou a importância da interpretação, afirmando que a poesia oferece essa possibilidade sonora de entender o mundo e que se “poesia rima com melodia, essa melodia precisa de ser dita”. E, a este propósito, citou Torga e esse poema em que ele diz:

“Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado”

Quando soube do tema da mesa em que ia participar, Janet Nuñez confessa que foi remetida para as suas memórias de infância, quando, na escola, era obrigada a decorar poesia para recitar no final do ano lectivo ou em dias festivos, como o dia da Mãe. E, recorrendo às palavras de Garcia Lorca, na sua Teoria y Juego del duende, aqueles poemas “aborreciam-nos tanto que estiveram a ponto de se converter em pimenta de irritação”. Depois, segundo a poetisa colombiana, o tema remeteu-a também para os poetas malditos, como Mallarmé, Rimbaud ou Verlaine, e para os benditos, que, na história da Literatura, estão catalogados como poetas místicos.

Mas foi a importância do ritmo e do som que Janet sublinhou porque, para ela, “a poesia bem escrita não tem a ver com a ortografia, nem com a escolha de palavras rebuscadas, nem tão pouco com o uso adequado da gramática ou com o uso da rima, mas sim com o ritmo, o tom, uma cadência adequada e um selo pessoal, que é a visão do poeta, o reflexo do seu mundo e das suas circunstâncias.”

Para Jorge Sousa Braga, a poesia começou por ser oral e, ao longo dos tempos, nunca deixou de ser lida e cantada, tendo a voz humana permanecido como o fio condutor mais perfeito da poesia. Remetendo para a actualidade e para as novas tecnologias, Sousa Braga referiu a existência de páginas na Internet em que é possível ouvir interpretações de poesia, mas, para ele, há algo no poema que só a voz de quem o escreve pode transmitir, independentemente de ser bem ou mal dito. Para concluir afirmou que “Um poema bem dito é o que nos entra directamente no coração”. E nós, que só o ouvimos, podemos atrever-nos a perguntar: bem dito ou bendito?

Servindo-se da sua experiência como professora primária, Teresa Rita Lopes lembra como há alguns anos não havia criança que não soubesse um ou mais poemas de cor. E essa memorização era incitada nas escolas e nas famílias, quando era hábito chamá-las para declamarem o que sabiam de cor. Memorizar poemas, dizê-los, aprender a apreciar a sua sonoridade é, para Teresa Rita Lopes, fundamental porque a poesia também tem uma tradição oral, porque a palavra aspira a ter um corpo de sonoridades, a ser dita e a ter ritmo. E, se tal se aplica à poesia, poderá também aplicar-se à prosa.

Lembrando que, saber de cor é saber com o coração e incorporar o que se sabe, Teresa Rita Lopes, recordou António Aleixo e a forma como tanta gente sabe, ainda hoje, de memória, algumas quadras de um poeta que, afinal, quase não sabia escrever. Essa proximidade que a poesia pode ter com quem a lê, memoriza, declama, com os mais jovens que actualmente se esquecem que, as letras das canções que sabem de cor são afinal, também elas, poesia.

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