Um Olhar Naufragado – segundo volume do diário de Luísa Dacosta apresentado na Póvoa de Varzim
Póvoa de Varzim, 12.12.2008 - Luísa Dacosta está de regresso à Póvoa de Varzim para o lançamento do livro Um Olhar Naufragado [Diário II], no dia 19, às 18h00, na Biblioteca Municipal.
A apresentação será feita por Paula Morão que revela já um pouco do conteúdo da obra: «Como o subtítulo indicia, este é o segundo volume do diário de Luísa Dacosta. O primeiro (Quimera, 1992; ASA, 2005) registava uma escolha de fragmentos diarísticos datados de entre 1948 e 1987; a abrir, epígrafes de Camilo Pessanha e de Cecília Meireles, e logo a seguir o prefácio, que começa assim: “Na água do tempo, um olhar naufragado”. Bastará agora que, ao enlaçar esse livro editado em 92 com o que ora se apresenta, se salientem elementos com espelho, que aliás, poderíamos, se espaço houvesse, corroborar com outros dos volumes da obra de Luísa Dacosta; mantém-se, com efeito, um conjunto de traços estilísticos e formais que justificam a coesão da Obra, assim mesmo, com maiúscula, para reforçar esses traços de união. No segundo volume, lá estão de novo as epígrafes de Cecília Meireles e da Clepsydra, acrescentadas dos dois tercetos do soneto de Sá de Miranda “O Sol é grande”, no seu conjunto insistindo em autores dos mais caros da nossa diarista, como já ficava claro no primeiro tomo do diário em esparsos lugares dos escritos de Luísa; com a insistência reiterada, não se trata apenas de afirmar uma linhagem em que a autora se revê, mas de o fazer por dentro de questões temáticas essenciais a um repertório de temas e motivos constantes, se não obsessivos...”.
A escritora, que no ano passado ofereceu o seu espólio à Câmara Municipal, já apresentou alguns dos seus livros na nossa cidade com a qual mantém há muitos anos uma profunda ligação, tendo sido nomeada “cidadã poveira».
Luísa Dacosta nasceu em Vila Real, em 1927. Na Faculdade de Letras de Lisboa terminou o curso de histórico-filosóficas, mas não a licenciatura, e sobre a sua formação a escritora revela: ”As minhas universidades foram as mulheres de Aver-o-Mar, que murcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e do os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga, e que mesmo afeitas, num treino de gerações, às vezes não aguentam e se suicidam (oh! Senhora das Neves! E tu permites!) depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Às mulheres de Aver-o-Mar devo a língua, ao rés do coloquial.”
Professora do ensino oficial, Luísa Dacosta começou a sua vida literária em 1955 com o livro de contos Província. No domínio da ficção, editou: Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu (1969) e Corpo Recusado (1985). No campo da crónica, publicou Aver-o-Mar (1980) e Morrer a Ocidente (1990). Na Água do Tempo (1992) constitui um diário, e no campo ensaístico e crítico escreveu Aspectos do Burguesismo Literário (1959) e Notas Literárias (1960).
Em 1970 iniciou a escrita de livros para crianças: O Príncipe que guardava Ovelhas (1970), que foi distinguido pela Internacional Board on Books for Young People como um “excepcional exemplo de literatura com interesse internacional”; O Elefante Cor-de-Rosa (1974); A Menina Coração de Pássaro (1978); Sonhos na Palma da Mão (1990); Lá vai Uma Lá vão Duas… (1993); e outros títulos.
Na sua actividade de tradutora, traduziu obras de Nathalie Sarraute e Simone de Beauvoir. Colaborou também em numerosos periódicos, de que podem destacar-se: Colóquio/Letras, O Comércio do Porto, Jornal de Notícias, Raiz e Utopia e Seara Nova.
Interessam-lhe sobretudo as temáticas dos quotidianos vulgares e a situação da mulher. Os seus livros situam-se num registo em que um sabor autobiográfico se mistura à crónica e ao conto.
Com a obra Na Água do Tempo, ganhou, em 1992, o Prémio Máxima. Em 1994, obteve o Prémio Calouste Gulbenkian da Literatura para Crianças para o melhor texto para crianças do biénio 1992-1994, e em 2001 foi apresentada a sua candidatura ao Prémio Andersen pelo conjunto da sua obra para crianças pela Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil. Também nesse ano foi-lhe atribuído pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto o Prémio “Uma Vida, Uma Obra”. Em 2004, foi distinguida com o Prémio para a área do Ensino no âmbito da iniciativa da Cooperativa Árvore comemorativa dos 30 anos do 25 Abril e dos 150 anos da morte de Almeida Garrett. Em 2007, o seu livro O Rapaz que sabia acordar a Primavera, ilustrado por Cristina Valadas, obteve o Prémio Nacional de Ilustração.