Museu Municipal
O Museu Municipal de Etnografia e História da Póvoa de Varzim foi fundado em 1937 por acção de António dos Santos Graça, insigne poveiro originário da classe piscatória, o qual, observando que as práticas e tradições próprias deste grupo se iam perdendo sem nenhum registo ou recolha, publicou, em 1932, O Poveiro. Neste livro “apresentava, de forma clara, minuciosa e atraente, a fisionomia cultural da comunidade poveira, redescoberta nos seus aspectos mais importantes e originais: a organização social, o parentesco, a transformação e a mudança, encarando já a Antropologia como ciência total do homem;” [LOPES, M. 2001]. Após a realização da 1.ª Exposição Regional de Pesca Marítima - Costa de Entre Douro e Minho, no Monumental Casino da Póvoa de Varzim, em Outubro de 1936, Santos Graça cria um Museu Municipal, o qual é aberto na casa, arrendada para este fim, conhecida pelo «Solar dos Carneiros», edifício brasonado reconstruído na segunda metade do século XVIII (por Manuel Carneiro da Grã Magriço), adquirida pelo Município ao Dr. João do Ameal, Conde do Ameal, em 1974 e declarado Imóvel de Interesse Público em 1985.
O Museu, aquando da sua fundação e no decurso da sua existência, foi acolhendo diversas colecções que se encontravam na posse da Câmara Municipal (por aquisição ou oferta) como: a colecção de faianças (dos séculos XVI a XIX) e mobília adquirida às herdeiras de Rocha Peixoto (etnógrafo, arqueólogo e fundador da Revista «Portugália»); o acervo do Museu fundado por Rocha Peixoto no “Club Naval Povoense”, em 1907; as colecções de Arqueologia e História do “Museu do Padre Brenha” (catalogadas e divulgadas por Cândido Landolt, em 1893) e do “Museu regional”, conservado no Liceu; as inscrições romanas de Beiriz; peças recolhidas aquando da demolição da primitiva igreja Matriz [1916 – 1918] e cedidas pela Santa Casa da Misericórdia, etc.
Desde o início que era patente a inadequação do edifício à nova função. Santos Graça, no entanto, conseguiu criar um Museu que durante anos foi considerado modelar em termos da Etnografia Marítima e milhares de visitantes percorreram este Museu e guardaram uma terna lembrança da forma como este mostrava as tradições e as artes dos pescadores e agricultores poveiros. As cenas do quotidiano da vida poveira - desde o nascimento até à morte, a faina, os modelos de barcos de pesca e salva-vidas, as tradições, religiosidade e crendices - tornaram-se num dos principais focos de interesse, a par das medalhas do Cego de Maio, dos retratos deste e outros heróis, simples, mas orgulhosos, pescadores.
A vocação etnográfica marítima do Museu era evidente, mas também a vida natural, aves, peixes, mamíferos embalsamados, a Arte Sacra, os objectos mais diversos do bric-a-brac aqui encontravam lugar. As doações sucediam-se incentivadas por frequentes notícias nos jornais locais, escritas pela mão de Santos Graça. No Museu, o Mestre Quilores e família, desdobravam-se na montagem e manutenção das salas e acarinhando o Museu e os visitantes. Às suas mãos hábeis se devem as dezenas de miniaturas que ilustravam os jogos tradicionais e outros costumes da vida poveira.
A morte de Santos Graça acarretou uma lenta agonia para o Museu. As condições do edifício degradavam-se rapidamente, as colecções estavam em risco. Em Janeiro de 1974 a Câmara adquiriu o edifício do Solar dos Carneiros. As colecções do Museu foram guardadas e iniciou-se o processo de renovação e alargamento do edifício. Mas, enquanto esteve encerrado manteve-se activo e foram montadas várias exposições como: “As Siglas Poveiras”, que conquistou o Prémio Internacional do European Museum of the Year Award, em 1980; “O Traje Poveiro”; “Arqueologia do Concelho da Póvoa de Varzim”; “António Santos Graça – O Homem e a Obra”; “A Pesca, os Banhos, a Vida Rural – uma visão da comunidade em tempo de mudança” e outras mostras que conheceram uma notável itinerância em Portugal e na Europa.
O Museu, reaberto em 7 de Setembro de 1985, foi sendo ocupado por exposições temporárias que abordaram os mais diversos aspectos da História e Etnografia da comunidade poveira ao longo dos tempos. Reconstituíram-se algumas salas com as antigas miniaturas das cenas da vida poveira e a “cozinha tradicional”, devido aos insistentes pedidos dos visitantes, conservando um sector como: o “Museu do Museu”.
Em 1991, a construção por iniciativa do Museu e de várias entidades locais, de uma réplica em tamanho natural da Lancha Poveira do Alto, que tem realizado diversas viagens em Portugal, Espanha e França, é bem significativa do carácter vivo e dinâmico do Museu.
A abertura do Núcleo de Arqueologia no Museu Municipal veio revelar os resultados dos trabalhos arqueológicos realizados em estações arqueológicas concelhias de que se destacam os achados em: Beiriz; na Cividade de Terroso; Vila Mendo (Estela) e Rates. A Cividade de Terroso, importante povoado da Idade do Ferro, tornou-se no primeiro pólo exterior do Museu.
Mantendo a vocação de guarda da memória da comunidade (à qual o Museu sempre se mostrou aberto e colaborante), ao longo dos anos foram-se acolhendo os mais diversos materiais e registos que sobreviveram a esta era de rápidas mudanças. A realização de visitas de estudo guiadas ao Museu, à Cividade de Terroso e ao concelho; trabalhos de inventariação e estudo do património da região; os projectos educativos; bem como apoios prestados a estudantes e investigadores, reflecte uma vontade clara de colaborar no estudo e defesa do Património Cultural e Natural.