Mesa 3
Póvoa de Varzim, 25.02.2010 -Com Caeiro e muita boa disposição à mistura: assim começou mais uma tarde do Correntes d’Escritas. No segundo dia do Correntes d’Escritas, a maior parte da tarde foi dedicada às mesas de debate. Com um painel variado, a primeira discussão centrou-se em Caeiro. A conversa passou e ficou.
A segunda tarde do
Correntes d’Escritas começou com uma jovem e animada mesa de debate, no
Auditório Municipal.
Pessoa, ou melhor,
Alberto Caeiro, deu o mote à discussão. Em causa o verso “Passo e fico, como o
universo”. Umas vezes divergindo, outras convergindo, conversaram os escritores
Bernardo Carvalho (desgostosamente carioca a viver não muito gostosamente em
São Paulo), Germano Almeida (vindo da Ilha da Boavista, sempre bem dispoto), o
espanhol e não menos divertido Isaac Rosa, João Tordo e Tânia Ganho (dois
jovens escritores portugueses). Uma “mesa de ficcionistas”, como a descreveu
Carlos Vaz Marques, o provocante moderador do encontro.
Como é costume nestas
mesas, não é possível tirar uma conclusão final. “Cada um de vós pega no tema
de uma maneira completamente diferente”, referiu um membro da organização que
estava a assistir. E assim foi.
Numa fase inicial, o
verso do heterónimo de Pessoa foi interpretado por cada um dos escritores à sua
maneira, numa exposição solitária e em monólogo.
Para Tânia Ganho, quem
escreve é “actor e encenador” e tem a possibilidade de vestir várias peles, de
viver várias vidas e personagens, de poder ser quem não é. Contou um episódio que a marcou
especialmente, quando num lançamento de um livro seu uma jovem lhe disse que
aquele livro tinha mudado a sua vida. “O livro é uma parte de mim. Enquanto o
objecto durar, eu fico”.
João Tordo concebeu a
ideia de duas mortes: a física e a do esquecimento, admitindo que “o que o
escritor pode desejar é resgatar-se dessa segunda morte”. Na sua opinião, o
“passo e fico” de Caeiro (equiparado ao rio que passa e às pétalas que caem)
traduz-se no resgate da morte, levado a cabo pela literatura.
Isaac Rosa explicou como
passou muito tempo a pensar no assunto, dizendo mesmo, em modo de gracejo, que
o verso de Caeiro irá ser o título do seu próximo romance. Manteve o tom
humorístico ao contar como julgou que o título em questão seria um tema
tipicamente português, dada a imagem que os espanhóis mantêm dos seus vizinhos
ibéricos como a de sendo um povo triste. “Está muito claro, vais falar de
internet”, sugeriu-lhe um amigo. Mas Isaac Rosa não seguiu este conselho. Num
registo mais sério disse que uma possível abordagem deste assunto seria a
comparação a António Machado, poeta espanhol contemporâneo de Fernando Pessoa.
Mas no que o escritor centrou realmente a sua exposição foi na ligação
autor/leitor. Mostrou tristeza ao sentir, como leitor, que os romancistas não
têm uma preocupação em escrever para quem os lê mas sim para si próprios ou
para as massas. A preocupação com o leitor é algo, no entanto, que diz
encontrar nos poetas. “Ter leitores implica ter responsabilidades”.
Bernardo Carvalho tomou
uma posição bem mais fracturante, ao expressar o seu desagrado pelo verso. “O
verso me irritou muito”. Caeiro “dá um sentido à poesia como se fosse uma
actividade natural (...) e para mim a literatura é o oposto disso, é a
dificuldade, a luta, a conquista”. E foi neste ponto da conversa que,
inesperadamente, afirmou que o verso é realmente sobre a internet, no sentido
em que, na rede, tudo é natural, dado, sem necessitar de conquista. “O que acho
interessante na literatura (...) é o contrário desse verso: o poeta escreve
porque sabe que passa e não fica”.
Quem fechou a primeira
ronda de declarações foi Germano Almeida. Admitiu que teve muitas dificuldades
em encarar o tema, tendo proposto uma parceria a Tânia Ganho, que recusou. “O
seu sorriso [referindo a Tânia Ganho] tem tanto de cândido como de egoísta”,
gracejou. Preferiu então transformar o verso do mestre Caeiro numa pergunta,
tendo chegado à conclusão que a possibilidade de passar e não ficar é um medo dos humanos. No entanto, não é um medo
seu. “Escrevo pelo prazer de escrever (...) Não acredito em passar e ficar com
o universo, não acredito na vida para além da morte (...) Fico contente se me
disserem que se riram a ler os meus livros”.
No fim desta exposição
inicial e antes de dar lugar às perguntas da assistência, o moderador inseriu
um novo conceito – a convicção. Foi de consenso geral que é algo que é
necessário para publicar livros, no entanto, nem todos os escritores presentes
na mesa estavam com o suficiente “grau de convicção”. Isaac Rosa admitiu ter
“pouca convicção”, Bernardo Carvalho anda com “pouquíssima convicção” e Germano
Almeida, num gradiente decrescente, afirmou “Para lhe dizer a verdade, a minha
convicção é nenhuma”.
O debate terminou com o habitual intercâmbio de ideias com o público.
Texto e Fotografias: Ágata Ricca