Desfile de livros à sobremesa
Póvoa de Varzim, 25.02.2010 - Depois do jantar, no hotel Axis Vermar, a noite continuou com o lançamento de livros. Vários escritores contactaram directamente com os leitores e com outros colegas, num momento de absorção cultural.
À semelhança da primeira
noite, o hotel Axis Vermar recebeu uma maratona de lançamentos de livros. Perante
uma plateia já cansada ao fim de dois longos dias mas ainda bem atenta, com uns
sentados em cadeiras, outros, mais descontraídos, em puffs, os livros começaram
a desfilar.
Quem deu início à sessão
foi Rui Vieira, que esteve a apresentar o seu 3º romance, Vozes no Escuro. Segundo o representante das Edições Nelson de
Matos, “não se trata de um best-seller”. É a “história de uma rapariga que vê negada a
possibilidade da sua paixão” e é obrigada a uma “vida de clausura”. No livro há
referências a cartas de Mariana Alcoforado e a textos bíblicos. As personagens
não têm nome e “a personagem principal são as mulheres”. O livro é uma
homenagem a José Cardoso Pires, seu escritor de referência. “O romance já não é
meu, já está impresso e é de quem o quiser ler”.
Seguiu-se Pedro Eiras,
com o livro Pequeno Divertimento sobre
Literatura em Cem Lições também conhecido por Substâncias Perigosas. O livro em questão começou pela publicação
de 18 crónicas num site que foram posteriormente repensadas e aumentadas até
formarem as cem lições. O autor deixa a definição do livro para o leitor
decidir. “Este livro é (...) o que vocês quiserem”. Fala em nomes como Mário de
Sá-Carneiro, José Saramago, Salazar e de mais umas dezenas de personalidades.
Denuncia ainda o perigo dos livros e da leitura. “Ler livros é perigoso”.
Da mesma editora de Substâncias Perigosas, a Livro do Dia,
uma outra obra: Antologia Desacordo
Ortográfico, uma parceria de escritores da lusofonia que se juntaram para
exaltar as diferentes características que a mesma língua possui, dependendo do
país onde é falada. Um livro que refere pouco, aliás, o acordo ortográfico.
“Com acordo ou sem acordo, o negócio é fazer o que a gente quiser, boa
literatura”.
Segue-se a vez da Quetzal
apresentar 3 livros. Antes disso, o representante da editora fez questão de
selar o compromisso que mantém com os autores latino-americanos: “Continuaremos
a publicar autores da América Latina”, já que a Quetzal sente uma grande
proximidade entre estes e os portugueses.
O primeiro livro desta
editora é do argentino Pablo Ramos, a Origem
da Tristeza. É, segundo o autor, “uma história fácil de seguir”. O livro
está dividido em 3 partes, que acompanham os primeiros anos de adolescência de
Gabriel. Numa Argentina afectada pela ditadura militar, o jovem vai passar por
uma série de “circunstâncias que vão acabar com a [sua] adolescência” e fazer
com que perca a inocência, ao “passar uma fronteira sem retorno”. O livro
termina com uma lição: “A morte não é o contrário da vida. Viver como um morto,
isso, é o contrário da vida”.
Milton Fornara marcou
também presença com o livro Cadáver
Precisa-se, uma obra com uma “escrita entre o sarcástico e o policial”.
Trata-se da história de Ramon Mendonza, um “desertor do género humano porque
tudo na sua vida falhava”. No final, e depois de ter aprendido a gostar de
Vivaldi, deita-se com a sensação de que todo o seu pensamento estava errado mas
o importante é que no dia seguinte está vivo outra vez.
Para o fim ficou Héctor Abad Faciolince, que terminou os lançamentos de livros de uma forma descontraída e bem disposta, animando a audiência. O título original do livro, Tratado de Culinaria para Mujeres Tristes, não foi aceite em Portugal e foi trocado por Receitas de Amor para Mulheres Tristes. Na Alemanha e em Itália foram fieís ao nome da obra embora neste último país tenha sido complicado convencer a editora, devido ao trocadilho que seria possível fazer com a palavra “culinaria”, transformando-a em “culo in area”. “Não sei de que género é o livro. É um livro sem género”, afirmou perante a atribuição por parte da editora do estatuto de romance à obra de Faciolince. Em relação ao livro, apenas um aviso: “As receitas são muito difíceis de se fazer”.
Texto e fotografias: Ágata Ricca