Festa e Procissão do Corpo de Deus na Vila de S. Pedro de Rates
A riqueza e deslumbramento da Procissão do Corpo de
Deus em Rates são precedidos pela possibilidade de admirar os tapetes de flores
que ornamentam as ruas. A sua execução deve-se a comissões de moradores das
diferentes zonas que, animados por sadia rivalidade, «tecem» as pétalas em
desenhos plenos de cor e beleza.
Cada grupo fica responsável por um pedaço de tapete, juntando-se, depois, todas
as pontas. A construção dos tapetes começa ainda antes da noite se diluir. A
organização e recolha das flores, normalmente gerberas, granjas, cedro, funcho
e rosas, exigem um forte espírito de equipa e um grande sentido de dádiva à
comunidade.
25.o Aniversário dos Tapetes de Flores na Vila de Rates
Esta iniciativa surgiu com uma ideia do Sr. Padre Sá Ribeiro.
Há 25 anos, apelou às pessoas para fazerem tapetes de flores às suas portas.
Inicialmente, eram feitos pelos vizinhos com casas circundantes ao percurso da
procissão. Hoje em dia, todos os lugares da freguesia têm um espaço destinado
para fazerem os seus tapetes de flores para a procissão do Corpo de Deus.
A grande parte dos tapetes estão prontos até às 13h e são
constantemente regados pelas pessoas dos respectivos lugares, até à hora da
procissão.
O bairrismo e a disputa pelo tapete mais bonito é muito
sentida pelos habitantes da Vila que ficam muito atentos aos comentários dos
turistas, mas com espírito de equipa sempre muito presente.
Cada grupo fica responsável por um pedaço de tapete, juntando-se, depois, todas as pontas. A construção dos tapetes começa ainda antes da noite se diluir. A organização e recolha das flores, normalmente gerberas, granjas, cedro, funcho e rosas, exigem um forte espírito de equipa e um grande sentido de dádiva à comunidade.
A Festividade do Corpo de Deus em Rates no século XVIII
«Nem para as últimas procissões, estabelecidas sob a piedosa égide do Marquês de Pombal; nem para as do Anjo Custódio ou da Visitação a Stª Isabel, mais antigas no reino, encontrei qualquer verba nas contas da Câmara [da vila de Rates]. Somente a festa do Corpo de Deus, tem rúbrica própria nas suas despesas obrigatórias (doc. III B) inscrevendo-se lá uma verba modesta, como modesta devia ser a festividade; não esqueçamos, porém, a contribuição popular para as danças e folganças habituais nesta festa. Como o Concelho fosse pequeno e pobre, aqui não eram os ofícios quem tomava sobre si a responsabilidade da «dança» mas todo o povo fintado para ela, mesmo após a sua extinção.
«... que de tempo imemorial pagam todos os moradores desta vila sendo casados um vintém e sendo viúvos ou solteiros dez reis para com eles fazer uma dança que vai na Procissão do Corpo de Deus em cada um ano e para isso elegia a Câmara dois homens para cobrar e porém a dita dança como hoje se vê na cabeça da Comarca que é o Porto e Barcelos que todas as danças que davam os oficiais de todos os ofícios e lavradores eram reduzidos piamente a andores de Santos que ornam a dita procissão e assim para evitarem também a dita dança querem que daqui por diante se pague os ditos vinténs e dez reis na forma do costume para que o Procurador da Câmara faça a festa naquela 5.ª feira com missa e sermão sobrando com música mas não clérigos» (ver.ões 1743, fls. 124). A invocação não teve imediato seguimento e ainda em 1758 a Câmara voltava ao assunto «...acórdão para definitivamente se tirar a dança da Procissão do Corpo de Deus, se fazer sermão e vir gaiteiro» (ver.ões 1758, fls. 48).”
Cf. AMORIM, Manuel - A vila de Rates no século XVIII, in «Póvoa de Varzim. Boletim Cultural», Vol. XII, nº 2, Ed. Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 1973, p. 334.
Festa e Procissão do Corpo de Deus em Portugal
“Esta festa foi decretada primeiro por Roberto de Torete, no sínodo diocesano de Liége, em 1246, e devia ser celebrada a partir do
ano seguinte, ficando encarregado um monge, de nome João, de compor o ofício
litúrgico. (...) Acontecia que o Papa
contemporâneo era Urbano IV, que
fora arcediago da sé de Liége quando aquela catedral admitia na lista das
solenidades a do Santíssimo Sacramento. (...) Pela bula Transiturus, de
8-IX-1264, foi decretada a solenidade
anual do Corpus Christi, fixada
na quinta-feira depois do domingo da Santíssima
Trindade e dotada com um dos mais belos ofícios litúrgicos, de cuja
composição fora incumbido, pelo próprio papa, o angélico Doutor Santo Tomás de Aquino.
Quase todas as igrejas, ao adoptarem a soleníssima festa, começaram a coroá-la
com majestosa procissão, cortejo
triunfal dos símbolos eucarísticos. (...) Em Portugal, como nas outras monarquias católicas, chegou a procissão
do Corpo de Deus a atingir carácter do acto oficial mais solene do ano. Incorporava os representantes de todos os poderes do Estado, civis e militares, com o
soberano à frente. (...)
A festa do Corpo de Deus (...) parece ter-se
celebrado já em Portugal nos últimos anos do reinado de D. Afonso III. (...). Teve grande importância nas
principais localidades de Portugal esta procissão, mas no Porto e (...) em Lisboa,
revestiu-se duma imponência jamais igualada. Foi D. João I quem ordenou que a imagem de S. Jorge, como padroeiro do
reino, acompanhasse a procissão (...). O santo aparecia então vestido de
ferro, ao uso do tempo, montado em bem ajaezado cavalo. S. Jorge tinha o posto
de general, o seu nome fora evocado nas falanges de Aljubarrota como um grito
de guerra. Nuno Álvares Pereira
gritou por S. Jorge contra os Castelhanos. (...) O rei concedeu a S. Jorge o
senhorio do castelo de Lisboa e deu-lhe moradia em S. Domingos. Foi-lhe criada uma irmandade composta por artífices
que trabalhassem em ferro e fogo. Deste facto nasceu talvez o de na
procissão do Corpo de Deus, onde figurava o santo, tomarem parte representantes de diversos ramos de artes e ofícios.
(...) Primitivamente, nas vésperas da procissão, faziam-se em Lisboa vários
jogos, folias, justas, cavalhadas e até tourada; as ruas por onde passaria o préstito eram varridas e cobertas de
areia, junco e espadanas, costume que veio até ao séc. XIX. (...) Todos
os moradores eram obrigados a ornamentar
as suas janelas e todos os lojistas
os seus estabelecimentos. (...) Depois da tomada de Ceuta, D. João I
ordenou, para comemorar esse facto, que se incorporassem no préstito alguns negros, tocando charamelas e tambores. (...) No cortejo figuraram o
juiz do povo, os procuradores da cidade, vereadores, magistrados, titulares e homens e mulheres de todas as
artes e ofícios, com insígnias,
estandartes e emblemas ou alegorias
das suas classes. (...) Os sapateiros escoltando um dragão; (...) e muitos desses homens e algumas mulheres (...)
bailavam (...) .
Em 1719, D. João V não concordou com o demasiado paganismo da procissão de
Corpo de Deus e deliberou modificar o cortejo, dando-lhe grande pompa, mas uma
mais profunda religiosidade. (...) O patriarca (...) comparecia para tomar
parte na procissão, (...) levando à frente as bandeiras dos ofícios e da Casa
dos Vinte e Quatro. Seguiam-se S. Jorge e o seu estado, apresentados
luxuosamente; com tambores a pé e charameleiros a cavalo e mais doze
trombeteiros peões, soprando em instrumentos de prata (...). Depois vinham 110
confrarias e 2.500 irmãos do Santíssimo; e uma criança vestida de S. João rodeada por outras figurando anjos e que
lançavam flores pelo caminho. E mais os Meninos Órfãos, os Terceiros do
Carmo, a Cúria, os tribunais, as ordens militares, os pagens e capelães do
Patriarcado, cantores e claviculares, tenentes da guarda real, a cruz do
prelado, o cabido, cabendo a 20 cónegos mitrados, 60 servos, 3 por cada, um
para conduzir a mitra, outro para segurar na cauda e outro para conduzir a
tocha. Apareciam depois fidalgos, (...) o
pálio, a cujas varas pegavam o rei,
os príncipes ou infantes e os representantes da maior aristocracia do reino, uso
que chegou até 1908.(...)” Cf. -Corpo de Deus, in Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, 2, Lx/Rio de Janeiro, Ed.
Enciclopédia, Ldª, s.d., pp. 727 - 729.
Data e local de realização: 15 de Junho de 2006 - Rates – Póvoa de Varzim
Contacto da organização: Pároco de Rates – 252 951 236