Lendas e Crenças
S. Pedro de Rates - Entre a Lenda e a Tradição; A Propósito do Morto Vivo; Uma Fonte... Uma Moura...
S. Pedro de Rates - Entre a Lenda e a Tradição
Conta
a tradição que S. Pedro de Rates foi convertido ao Cristianismo pelo
Apóstolo S. Tiago, aquando da sua peregrinação pela Hispânica, no
século I. Durante essa viagem, cumprindo a missão de difundir a
mensagem de Cristo, morto e ressuscitado havia pouco tempo, foi
deixando sementes que germinaram e fortaleceram as raízes da Igreja
Católica Apostólica Romana, num império hostil à nova Fé. Pedro seria
um dos 7 varões ordenados pelo Apóstolo, em Santiago de Compostela, e
nomeado bispo de Braga.
Na lenda, o episódio que fez dele um
mártir teve origem num milagre: solicitado para curar de doença fatal a
filha de um poderoso pagão, S. Pedro de Rates conseguiu-lhe tal dádiva.
Reconhecida, converteu-se ao Cristianismo, o que causou a ira do pai e
consequente desejo de vingança. Avisado, o Santo refugiou-se em Rates,
mas foi aí encontrado e assassinado. Ficou sepultado sob as ruínas da
pequena capela onde tudo aconteceu, pois, à semelhança da vida do
religioso, também foi destruída.
Tempos mais tarde, do alto do
monte onde se refugiara, o eremita S. Félix vislumbrava uma luz na
escuridão. Guiado pela curiosidade e pela convicção de um chamamento
piedoso. Dirigiu-se ao local, procedeu à remoção das pedras e encontrou
a causa de tal clarão: o corpo de S. Pedro de Rates.
A
transladação do corpo intacto para a Sé de Braga faz, também, parte da
lenda. Os factores reportam-se somente à transferência, no século XVI,
pelo arcebispo Frei Baltazar Limpo, de relíquias do Santo (pequenos
ossos que análises realizadas apontam ter pertencido a uma criança com
cerca de 12 anos). O corpo, se alguma vez existiu, teria já
desaparecido.
Muito devoto do seu Santo, a vila de Rates
colocou-se sob o seu cuidado. Nos limites definidos pelo caminho do
cerco ele vela para que nem fome, nem peste, nem a guerra toquem nos
seus protegidos. Para tal pode contar com o apoio de S. Sebastião, que
é igualmente celebrado pela paróquia, a 20 de Janeiro.
Invocado
para muitas graças, S. Pedro de Rates é, no entanto, associado à
esterilidade. De uma antiga fonte com o seu nome diz-se que se poderia
obter a cura da enfermidade, cumprindo o seguinte ritual: a mulher
deveria sentar-se sobre uma pedra furada que aí existia. Talvez por ser
mercê tão divina, tem o Santo fama de vingativo para com quem não
cumpre o prometido. É, provavelmente por receio desse “humor”, que
muitas mulheres grávidas guardam o dia do Santo – 26 de Abril – e até
para os animais fêmeas no mesmo estado não é aconselhável a utilização
nos trabalhos. Qual a base histórica desta lenda? A
desmontagem pode fazer-se logo ao primeiro nível: são grandes as
dúvidas sobre a peregrinação de S. Tiago à Península. Logo depois
prova-se que a evangelização de Braga é posterior a meados do século I.
Por outro lado, este culto não consta em nenhum dos numerosos livros
litúrgicos bracarenses anteriores a 1511. A história aparece pela
primeira vez nesta altura, num breviário e missal publicado pelo
arcebispo de Braga D. Diogo de Sousa.
Será que não existem
fundamentos reais para toda esta lenda fabulosa? A análise do contexto
em que ela surge poderá fornecer alguma pista? No século XVI, a diocese
de Braga continuava a sua querela com Toledo sobre a primazia ibérica,
daí a “grande preocupação em canonizar S. Pedro de Rates, que era
identificado como primeiro bispo bracarense e sagrado por S. Tiago
Apóstolo. Deste modo queria provar que a Igreja Bracarense vinha do
tempo apostólico. Para isso, forjou-se a descoberta do seu corpo pelo
eremita e um célebre Dr. Lousada fabricou diversos documentos falsos,
como sendo de séculos anterior.” (1)
Então tudo isto foi
inventado do nada? Existiu algum Santo com ligações à vila de Rates? É
ao P.e Avelino de Jesus Costa que se deve o esclarecimento deste
imbróglio. De facto existiu um Pedro, bispo de Braga, que morreu em
Rates. Este seria não o primeiro eleito para a cátedra bracarense mas
sim o restaurador da diocese, aquando da reconquista cristã. A
coincidência do nome possibilitava a confusão. O Bispo D. Pedro
(1070-1091), o restaurador, morreu com fama de santidade num mosteiro
dos limites da sua diocese. Esse mosteiro seria, muito provavelmente, o
de Rates.
A Propósito do «Morto Vivo»
No passado dia 15 de
Agosto foi notícia a interdição do habitual cumprimento de promessa a
Nossa Senhora Aparecida, em Lousada, designada por “Morto Vivo”. Esta
prática também se realizou na freguesia de Laundos em honra de Nossa
Senhora da Saúde. Foi no não muito distante ano de 1978 que tal
aconteceu pela última vez.
Este ritual simboliza a cura, a
“graça” concedida pela Senhora. No momento em que o miraculado é
colocado frente à imagem, “renasce”, levantando-se do caixão onde
jazia. Para além de tal aspecto, “Os fiéis que procedem a este rito
(...), praticam também o que poderia chamar-se uma iniciação à morte, a
fim de lhe perderem o medo”(1).
O desaparecimento destas
práticas insere-se num processo, já milenar, desencadeado pela Igreja
Católica, visando “Extirpar das festas religiosas” todo e qualquer
elemento ‘profano’ (...), a grande arma do Arcebispos, no desenrolar
desta luta, foram ao ‘interditos e proibições’ que lançaram às
comissões e confrarias e até mesmo a pessoas particulares por estas
desobedecerem às normas estabelecidas para bem realizar uma festa
religiosa”(2). É um verdadeiro confronto entre “religião popular” e a
religião pelo povo designada “dos padres” e que tem conhecido vitórias
e derrotas para a hierarquia eclesiástica. Em muitos casos ela foi
“obrigada” a integrar aspectos profanos, vestindo-os com outras
roupagens.
O Santuário da Nossa Senhora da Saúde foi, e é,
ponto de confluência de gentes das redondezas mais ou menos distantes.
É forte a devoção, quer dos camponeses quer dos pescadores poveiros e
vilacondenses. Esta unidade no culto compreende-se facilmente se
atendermos que está em jogo um “bem” primordial – a Saúde – e, por
outro lado, considerando que para os pescadores em causa, quando estão
no mar, a Nossa Senhora da Saúde tem significado especial: o santuário
encontra-se no sopé do monte que lhes serve de guia e lhes indica a
proximidade do lar.
A romaria a Nossa Senhora da Saúde era
extremamente concorrida e conhecida pelos folguedos que, por vezes,
acabavam em pancadaria. A plena consciência, por parte da Igreja, de
que “nem sempre estas (romarias e peregrinações) são compreendidas
única e exclusivamente por motivos religiosos, mas quando
principalmente com outros fins, como recrear o espírito, visitar
cidades, cultivar as ciências e as artes” (3), levou a que, em 1936, a
Congregação do Concílio decretasse que as peregrinações deveriam ter
sempre um “carácter verdadeiramente religioso” e o direito de as
promover e dirigir caberia unicamente à autoridade eclesiástica. Neste
contexto, em 1946, o Monsenhor Pires Quesado organizou pela primeira
vez a peregrinação anual, em Maio. Esta acabou por se sobrepor à
romaria, cativando grande número de aderentes. Os crentes tinham a
possibilidade de venerar a Senhora, sem cair em exageros e profanação.
Cumpridos os deveres religiosos, ficavam bastante reduzidos os
pretextos para a ida à festa.
A extinção destes rituais
reflecte não só a oposição da Igreja, mas também o desaparecimento
rápido da sociedade tradicional, onde tinham uma função social a
cumprir.
Mª Jesus
(1) Espírito Santo, Moisés – A Religião Popular Portuguesa, 2ª ed. , Lisboa, Assírio e Alvim, 1990, p. 139.
(2)
Costa, Joaquim Carneiro – Festas Religiosas Estudo na “Acção Católica”
(1916-1988), in “Cenáculo”, Braga, vol. 31, nº 120, 1992, p. 12/92.
(3) Costa, Joaquim Carneiro – Idem, p. 23/103.
Uma Fonte... Uma Moura...
Tal como acontece a muitas
fontes, rochedos, grutas, ruínas, etc., também à Fonte do Crasto, em
Navais, anda associada a tradição da Moura Encantada. Situada a
nascente da Estrada Nacional nº 13, esta construção foi durante séculos
o único ponto de abastecimento de água do lugar. Demitida desta
ancestral função viu-se duplamente penalizada; sofreu o abandono
“físico” e até o esquecimento no imaginário popular da memória concreta
da lenda a ela associada. Hoje para a maioria das suas gentes a
recordação da Moura Encantada* é muito ténue, a exemplo destes versos
cantados pelo Grupo Folclórico de Navais:
“No tempo dos meus avós
Já a minha avó me contava
Que havia lá um tesouro
E uma moura encantada”
Implacáveis,
os Tempos Modernos “mataram” a Moura ferindo-a na sua própria essência,
foi apagada do Maravilhoso Popular, do qual era uma das mais poéticas
criações. Agora só lhe resta trocar de refúgio, recolhendo-se às
páginas dos livros.
A nível nacional era grande a variedade de
relatos: um dos mais característicos era o do homem abordado por
sedutora mulher de longos cabelos dourados que lhe propunha a passagem,
no dia seguinte, para contactos eróticos em troca de objectos preciosos
por ela guardados. Se o interpelado acedesse ao convite encontraria uma
cobra a quem deveria beijar. Como a quebra do compromisso ou o medo no
momento parecia afectar todos os “candidatos a desencantadores de
Mouras” as fabulosas riquezas continuavam uma miragem inalcançável. A
Moura Encantada assumia, portanto, duas formas: a de cobra e a de
gentil donzela que prometia tesouros e riquezas inesgotáveis àquele que
lhe quebrasse o fadário.
A esta lenda andam associadas,
sobretudo, duas vertentes: a de divindade ou génio feminino das águas
(fontes, rios, ribeiros, poços, etc.) e a de guardadora de tesouros
encantados. Uma particularidade interessante era a sua paixão pelo
leite, o que se explica pela confusão entre as mouras e as cobras, sob
cuja forma apareciam. Está “arreigado no nosso povo a crença de que
quando há uma criança de mama que está magra, é porque de noite uma
cobra vem mamar no peito da mãe, metendo o rabo na boca da criança para
a enganar. Também se crê que para apanhar uma cobra basta colocar no
sítio onde ela costuma aparecer, um alguidar de leite” (1). Outro
elemento curioso era o que supostamente ocorria na noite e madrugada de
S. João, momento em que a moura se libertava e, em figura humana, vinha
pentear os seus cabelos de ouro.
Para os etnógrafos a esta
lenda caberia a função de sacralizar a terra e o trabalho agrícola. A
Moura personifica a Mãe Terra e a cobra apresentada como um animal
solidário da mulher. Da combinação destas duas simbologias resultaria a
valorização do trabalho agrícola (as riquezas douradas da Moura eram
ancinhos, cavalos, bois, etc.) e revelar-se-ia o poder da mulher na
agricultura.
A identificação de “Moura” como feminino de mouro
é errónea. Convém lembrar que os muçulmanos nunca chegaram a dominar o
norte do país e era precisamente aquique mais se encontrava implantado
este mito. A origem, embora difícil de determinar com segurança,
deve-se procurara noutra área: Moira (termo grego) era o nome dado às
deusas tecedeiras. Também se pode aproximar a palavra moira de Mairas,
dos antigos Germanos, ou ainda de Morgana ou Muriguen, deusa celta.
Mª Jesus
(1)
Pedroso, Consiglieri – Contribuições para uma mitologia popular
portuguesa e outros escritos etnográficos, Lisboa, Dom Quixote, 1988,
p. 223