No primeiro dia de
comemorações, a Biblioteca Municipal acolheu o 2º Encontro da Rede Nacional da
Cultura do Mar. José Macedo Vieira, Presidente da Câmara Municipal da Póvoa de
Varzim, e Almirante Bastos Saldanha, em representação da Sociedade de Geografia de Lisboa,
deram as boas-vindas aos participantes que assistiram à conferência “A Cultura
do Mar e dos Rios”, pela palestrante Inês Amorim, do Centro de Investigação
Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória, da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto, e aos dois painéis de debate – “A sustentabilidade
patrimonial das embarcações tradicionais” e “O desafio da apropriação do mar pelos
Portugueses”.

A realização deste
evento na Póvoa de Varzim, como lembrado na sexta-feira, concretiza uma
deliberação do 1º Encontro (16 de Novembro de 2004) para que “a realização do
próximo fosse fora de Lisboa, por iniciativa local”. É um regresso à Biblioteca
Municipal “Rocha Peixoto” onde, em 1 de Outubro de 2004, por ideia e iniciativa
do seu então director, Manuel Lopes, se realizou a primeira sessão de
divulgação sobre a Rede Nacional da Cultura do Mar, a que a Sociedade de Geografia
de Lisboa anuiu de imediato e a que se seguiram outras sessões em Ílhavo, em
Lisboa e em Olhão.

Também na sexta-feira, na Biblioteca Municipal, foi
inaugurada a exposição “a vida é assim”, de Rita Rocha. A fotógrafa elaborou um
registo etnográfico de excelência do pescador contemporâneo, trabalho que ainda
está a realizar.
Rita Rocha nasceu na Póvoa de Varzim, em 1978. Em contacto com a fotografia
desde muito cedo pelas mãos do pai, que lhe oferece a primeira máquina
fotográfica, e sempre ligada às artes na sua contínua formação, licenciou-se em
Fotografia pela
University of Glamorgan
em Cardiff,
no
Reino Unido, onde viveu nos últimos 6 anos.
Até 24 de Setembro poderá visitar esta exposição.

No sábado, o evento deslocou-se até ao mar para a Regata das
Embarcações. Neste encontro participaram associações
de várias zonas do país e da Galiza, trazendo as suas embarcações, num total de
onze embarcações presentes, seis das quais da Galiza, local onde a Lancha
Poveira vai muitas vezes para eventos do género. À tarde, teve lugar a Regata
das embarcações, onde a Lancha Poveira saiu ao mar, ao comando do Mestre Manuel
Agonia. O Mestre lembrou que “é sempre um gosto sair ao mar na Lancha Poveira”
e sublinhou a ligação da embarcação a Manuel Lopes: “ele saía sempre na
Lancha e no dia que me disse que não podia mais, previ que algo estava mal.
Pouco depois faleceu”.

Ainda no sábado, ao final da tarde, no Diana Bar,
realizou-se a conferência “Mar, Património e Educação”. Sara Vidal Maia,
investigadora em Património e Culturas Marítimas; Fátima
Claudino, da Rede de Escolas Associadas da UNESCO; Ana Irene Gomes e alunas da
Escola Secundária Rocha Peixoto; e Laura Barros, do Agrupamento de Escolas de
Aver-o-Mar, foram as convidadas para falar sobre a relevância da interacção
entre a escola e a identidade local.

Sara Vidal Maia sublinhou
a “ligação entre o passado como perspectiva de futuro” e, para esse efeito, a
“grande importância dos museus na preservação da identidade local”. Para a
investigadora é “imprescindível salvaguardar o património identitário desta
comunidade através do trabalho das suas gentes, momentos de lazer, memórias da
infância e espaço físico, social e mitológico”. O património identitário
atribui um sentido de localização pessoal aos
indivíduos e
configura as suas relações sociais, gerando complexos
sentimentos de
pertença comunitária, que facilitam o envolvimento com os
outros. Nas
comunidades marítimas, a reconstrução destas complexas
relações passa,
sobretudo, pela comunicação oral e escrita, que deve ser
incentivada por
redes educativas e de esclarecimento, que facilitam a
transmissão inter-geracional
de conhecimentos, revelou Sara Vidal Maia.

Fátima Claudino
deixou bem claro o seu objectivo de envolver os jovens em projectos que
transmitam valores da prática da cidadania e do saber. Para isso, apresentou um
projecto da Escola Dr. Francisco Fernandes Lopes, em Olhão, de preservação do
património cultural marítimo. Esta é uma das 59 escolas associadas ao projecto
da UNESCO e que seguem os quatro pilares de aprendizagem Delors: aprender a
conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser.

Ana Irene Gomes e
quatro alunas da Escola Secundária Rocha Peixoto, vestidas como pescadeiras e
tricanas, apresentaram o seu projecto escolar sobre a promoção da Lancha
Poveira do Alto “Fé em Deus”. O projecto consistia na elaboração de um folheto
divulgativo da embarcação. Depois de várias tentativas, as alunas conseguiram
alcançar os objectivos com a colaboração dos elementos da Biblioteca Municipal
e o produto final foi distribuído por todos os presentes.  

Laura Barros
apresentou o projecto “Brincar com as Palavras”, levado a cabo pelo Agrupamento
de Aver-o-Mar com o apoio da autarquia.
“Brincar com as Palavras” foi desenvolvido
com o objectivo de valorizar a participação das famílias na vida escolar das
crianças, bem como a cultura local. O livro ensina lendas, histórias,
provérbios, adivinhas e poesias, sempre com a visão dos mais pequeninos,
afinal, este projecto foi feito por eles e para eles.

Ainda no sábado, Manuel Lopes, antigo director da Biblioteca
Municipal e impulsionador da Lancha Poveira, foi recordado de uma forma muito
especial, na sessão
In Memoriam – Manuel Lopes. Poemas de David
Mourão Ferreira, António Nobre, Joaquim Castro Caldas, entre outros foram lidos
por João Rios, acompanhado por Paulo Lemos, na guitarra portuguesa, Tiago
Pereira, violino, e José Peixoto, na guitarra – Colectivo Silêncio da
Gaveta. Os textos mostraram a quem não privou com Manuel Lopes a sua força e
perseverança.

No domingo, o Encontro voltou-se para o mar e as
embarcações voltaram a mostrar-se a partir da Marina da Póvoa.