A figura ímpar de Abel Salazar – como
cientista, pedagogo, artista, cidadão e filósofo – está normalmente associada a
uma personalidade austera, sorumbática, distante. Os tons escuros da sua
pintura na última fase da vida, os auto-retratos, o internamento psiquiátrico
durante cerca de quatro anos e a sua actividade como investigador, contribuíram,
certamente, para fundamentar este estereótipo.

No entanto, sabe-se, através de
variadíssimos depoimentos, do humor fino e sensível, bem como da delicadeza de
trato. Um dos seus amigos escreveu: “Quem não privasse de perto com Abel
Salazar julgá‑lo‑ia à conta do seu aspecto fechado, carregado, um homem seco,
duro, avesso a jovialidades. No trato íntimo, porém, Salazar era outro: –
irradiava gentileza, afabilidade, prestabilidade, a todos atendendo e servindo,
sem afectação ou prosápia.” As caricaturas e sobretudo as cartas dirigidas aos
seus amigos, onde o texto e intercalado com desenhos que o (des)articulam, vem
confirmar a imaginação e frescura da sua ironia por vezes cáustica.

Esta exposição vem assim tentar colmatar
uma lacuna que, mais de quatro décadas passadas, não sofreu alteração.

Os trabalhos expostos repõem o fulgor
desta sua faceta, tão pouco conhecida, através da interpretação psicológica dos
condiscípulos, médicos, amigos e professores, com pequenos traços a exagerar a
aparência física permitindo identificar personagens que por vezes se apresentam
até de costas voltadas para o observador.