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"A Literatura Rasga a Realidade"

Póvoa de Varzim, 15.02.2008 - A estranheza perante os temas das mesas de debate começa a ser já reacção habitual entre os convidados.

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"A Literatura Rasga a Realidade"

Póvoa de Varzim, 15.02.2008

Póvoa de Varzim, 15.02.2008 - A estranheza perante os temas das mesas de debate começa a ser já reacção habitual entre os convidados.

A primeira desta tarde também não foi excepção. “A Literatura Rasga a Realidade” foi o tema que reuniu Eduardo Halfon, Ignacio del Valle, João Paulo Cuenca, Pedro Teixeira Neves e valter hugo mãe, num debate moderado por Michael Kegler.

“Uma frase muito bonita, mas que me deixa confuso”, revelou Eduardo Halfon, referindo-se ao tema. E começou por contar uma história, a do seu avô, que esteve preso em Auschwitz, mas nunca falou sobre isso. Até que um dia se deixou entrevistar pelo neto e lhe confessou que foi salvo por um boxeur, mantido vivo pelos alemães que o gostavam de ver lutar. E foi através dos ensinamentos do boxeur, “através das suas palavras”, como referiu Halfon, que o seu avô conseguiu sobreviver à prisão. Mas, para espanto do escritor, e pouco depois desta entrevista, saiu uma notícia num jornal da Guatemala, país de origem de Halfon, com o seu avô na primeira página, que afirmava ter sobrevivido ao Holocausto devido aos seus conhecimentos em carpintaria.. “O meu avô não percebia nada de carpintaria”, explicou, concluindo que “a realidade já está rasgada, é múltipla, e a literatura não é mais do que tentar integrá-la”, avançando ainda com outra ideia, a de que na literatura vai-se “construindo uma realidade destruindo outra”.

Para Ignacio del Valle “na cultura não há um deus. O mesmo acontece na literatura e na realidade”. E qual o papel do escritor? “O nosso papel é fazer o nosso trabalho”, explicou, defendendo que “as palavras devem ser como espelhos e devem reflectir o mundo na sua realidade” e que, por sua vez, “a literatura é um reflexo pálido da vida”. Na sua opinião, literatura e realidade partilham uma mesma ”vocação mestiça”, são ambas um lugar para a troca de ideias.

Para João Paulo Cuenca o tema seria mais fácil se aparecesse em ordem inversa: a realidade rasga a literatura. “Somos cada vez mais contaminados pela realidade”, justificou, “o livro é recebido como um acto de experiência prévia do escritor e nunca como uma experiência em si mesmo e o leitor julga-nos por isso”. Recordando um episódio em que recebeu um e-mail de uma leitora, que o assustou por “invadir a minha realidade pessoal”, Cuenca explicou porquê este julgamento por parte do leitor: “você escreve um livro, mas o leitor escreve você, cria uma personagem.”

Rasgar a realidade, rasgar o mundo é uma imagem bonita e feroz, como explicou Pedro Teixeira Neves. “Rasga-se por hábito, quando não nos agrada, e por isso, os escritores, antes da era informática, eram dos maiores rasgadores do mundo”, continuando a descrever o acto de rasgar como um acto de repúdio ou de contestação, sempre tão presente na literatura – “escrever sempre foi uma forma de mudar o mundo e por isso se tornou numa profissão tão perigosa”. E é preciso coragem para rasgar, para “avançar sem saber por onde mais rasgar, perante uma página em branco”, para procurar sempre. A literatura rasga a realidade talvez para “construir outra realidades” ou ainda, num outro sentido encontrado por Pedro Teixeira Neves, para dar o mundo a outros. “Quem escreve viaja”, explicou, “rasga realidades sem sair do lugar, e por isso tem o poder de levar o leitor a ver o mundo como ele é, sem exigir ao leitor passaporte ou que marque a viagem, sem precisar de sair de casa.”

Começando por dizer que os seus livros não são autobiográficos, antes só se transformando nisso depois de escritos, valter hugo mãe confessou ainda ficar marcado por aquilo que escreve. “Adília Lopes dizia transformar tudo em literatura, mas a mim é a literatura que me transforma”.  Para o autor a dúvida reside no tipo de literatura que rasga a realidade, se é “a que a recusa ou a que a interrompe e altera”, acabando por dizer que acha que “tudo acontece”. Na infância tinha uma imaginação fértil, como fez questão de demonstrar através de alguns exemplos que contou à plateia e terminou a sua intervenção falando sobre o seu processo de escrita. “Quando escrevo estou num lugar solitário onde comunico comigo enquanto leitor e escritor. O que os outros aproveitam do livro nunca é aquilo que eu espero, nem eu tenho que esperar coisa alguma”.

Correntes d’Escritas termina amanhã, mas não se despede sem uma nona mesa, às 10h30, no Auditório Municipal.

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