Esta manhã solarenga de sexta-feira, dia 27, reuniu à mesma mesa: Ana Luísa Amaral, Ana Paula Tavares, Germano Almeida, Inês Pedrosa, Isabel Pires de Lima, Manuel Jorge Marmelo e, como moderadora, Ana Gabriela Macedo. O debate decorreu em colaboração com o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho e, mais uma vez, preencheu por completo o novo e aconchegante Cine-Teatro Garrett (Fotogaleria).

Os escritores analisaram sob os respetivos pontos de vista, marcados pelas diferenças de origem (desde angolana a cabo-verdiana, ou portuguesa), género de estilo literário ou até idade, o tema proposto. Foram unânimes em concordar que não é o Prémio que constitui Poder, mas antes o impacto da narrativa e a influência da palavra na sociedade e nos regimes democráticos ou não. Afinal, lembrou Ana Luísa Amaral, “dizem que Napoleão tinha medo de jornais, mas ninguém disse que ele tinha medo de prémios”. Ainda assim, os escritores concordaram que os prémios são úteis ou necessários pelo “reconhecimento e algum incentivo” que trazem, como disse Ana Luísa Amaral.

A escritora e Professora da Universidade do Porto referiu que a “escrita existe separada dos prémios”, embora haja a necessidade de “um diálogo com o mundo”, defendendo a ligação da criação à comunicação.

Porém, Ana Luísa Amaral não escreve poesia para os prémios, explicou, “escrevo porque preciso, para encontrar algum sentido para a vida e para o mundo. Escrevo desde sempre e, enquanto escrevo, vivo numa outra dimensão um pouco descolada da vida”.

Ana Paula Tavares referiu a importância dos prémios para a contestação ou luta contra determinadas injustiças, apontando o exemplo dos discursos dos três africanos premiados com o Prémio Nobel: Wole Soyinka, Nadine Gordimer e J. M. Coetzee. Nomeadamente, o nigeriano Soyinka optou pelo discurso político para salientar o silenciamento dos escritores e a perseguição política.

Com o bom humor que carateriza a pessoa de Germano Almeida, o escritor e advogado cabo-verdiano abordou os escritores “desbocados sobre si próprios”, que nem sempre têm uma postura “politicamente correta” e, assim, correm o risco de não virem a ser premiados. Por outro lado, o prémio pode ser um contrapoder, pois temos muitos exemplos de escritores que recusaram receber Prémios, alegando razões pessoais e íntimas ou então razões políticas. Nestes casos, a razão da recusa acaba por ganhar valor e impacto para a causa defendida.

Germano Almeida admite que todas as pessoas gostam de elogios e, naturalmente, os escritores gostam de receber prémios, “vendo assim reconhecida a sua obra”, em particular para os escritores mais jovens torna-se muito importante receber um prémio. Já para não falar do valor pecuniário do prémio, assunto sobre o qual parece haver alguma vergonha em falar, como se o escritor ainda “vivesse das nuvens” ou se contentasse “em comer apenas um ovo por dia”…

Inês Pedrosa voltou a destacar este Encontro na Póvoa de Varzim e o fenómeno de haver tanta gente interessada em ouvir escritores e em falar de livros, afirmando: “o que aqui se passa é o resultado da fé na magia da Cultura”.

A jornalista e escritora considera que “a escolha das palavras é poder; cada exercício de leitura é poder; aceitar ou recursar prémios é poder”. Pena é que na atribuição de prémios as mulheres não sejam tão contempladas quanto os homens: “o prémio Nobel foi atribuído 107 vezes e apenas 13 no feminino; o Prémio Camões, em 26 edições, foi atribuído 25 vezes a homens e 5 vezes a mulheres”…  

“Os tops de vendas valem o que valem, mas quando aparece por lá um escritor autêntico, geralmente, é um homem”, afirmou Inês Pedrosa.

A antiga Ministra da Cultura (mandato 2005-08), Isabel Pires de Lima, considerou que “o prémio distingue e aponta socialmente seres distintos”. E, refletindo sobre porque proliferam hoje os prémios, Isabel Pires de Lima aponta algumas razões: “suster a queda literária e a sua perda de prestígio na sociedade; a procura de prestígio de quem atribui o prémio; a necessidade de procurar num prémio a mola que faz vender (o ruído mediático) e responder a uma necessidade de provocar a invenção de escritores”. Apesar de tudo, a criação de prémios literários “é positiva”, concluiu.

Manuel Jorge Marmelo, escritor vencedor do Prémio Correntes d’Escritas 2014, reforçou que “não pensa nos prémios quando está a imaginar ou a escrever os seus livros, não são os prémios o mais importante nem uma verdade essencial quanto à qualidade do que se escreve”. Mas não podia negar que o Prémio Correntes d’Escritas teve um “impacto enorme” na sua vida, desde logo porque já não está desempregado, como acontecia há um ano, encontrando-se, hoje, com um “estado de espírito completamente diferente e até suspeito que estou mais bonito!…”