O voluntariado é hoje uma realidade social pujante, com dignidade institucional ao nível das políticas públicas.

O contributo que inúmeros portugueses, integrados em milhares de organizações, deram na presente situação de crise, e que foi fundamental para que ela não atingisse entre nós a dimensão dramática que teve noutros países – esse contributo, dizia, realçou a importância do voluntariado como grande reserva moral (e só depois social e económica) da nação. E essa importância é realçada (quanto mais não seja pelo seu valor económico, que se diz equivalente a 1% do PIB nacional) mesmo por aqueles que, por razões ideológicas, antes menosprezavam esta actividade, porventura associando-a a formas arcaicas de entreajuda e de solidariedade, filiadas em convicções religiosas.

E se é certo que são de matriz cristã as primeiras organizações solidárias que a nossa sociedade edificou, certo é também que elas hoje revestem uma tão grande amplitude de objectivos e de modelos organizacionais que as de inspiração cristã são apenas um segmento (porventura ainda o mais sólido e expressivo) entre os muitos que, numa sociedade progressivamente laica, surgiram e se afirmaram com objectivos e códigos de conduta que são neutrais em matéria de filiação religiosa ou política. Por isso, na nossa sociedade coabitam e cooperam as ancestrais Misericórdias e as recentes associações e colectividades de todo o género. Há, de facto, na nossa sociedade uma consciência nova, no domínio da acção social. Porque são mais, sobretudo em época de dificuldades, aqueles que carecem de ajuda: é que há carências novas, que não apenas as de ordem material. Mas também há mais consciência da capacidade de ajudar: mesmo quem carece de algo tem igualmente disponibilidade de algo. Hoje, a solidariedade assume essa dupla perspectiva: dar e receber – todos têm, todos precisam.

O importante é, pois, que cada sociedade se organize de forma a maximizar o potencial de riqueza que o voluntariado disponibiliza. Quando digo sociedade digo, obviamente, a sociedade portuguesa no seu todo, tendo presente, no entanto, a base local em que deve assentar a acção voluntária, que é, antes de mais, direccionada para os mais próximos. Até por uma questão de eficiência: o conhecimento directo das situações dispensa diligências burocráticas (que fazem tardar o que é urgente e devassam o que deve continuar sob reserva) e defende a dignidade do beneficiário, cuja auto-estima preserva. É disto que se fala quando se diz que a acção social deve ser, antes de mais, acção de proximidade.

É redutora a visão que, muitas vezes, se tem da dádiva voluntária dos cidadãos, que se não limita ao que normalmente identificamos como “acção social”. Não só esta corresponde a um leque muito mais vasto de intervenções, como também a acção voluntária dos portugueses (e, em particular, dos poveiros) comporta muitos outros campos de acção, que vão da solidariedade ao desporto, à cultura, à defesa do ambiente, à filantropia, etc. E é a acção conjugada de todas as organizações de voluntários que melhora o trabalho de cada uma e sobretudo o resultado final. Este é um domínio onde, por definição, se trabalha em parceria.

A Póvoa de Varzim deve imenso à sua legião de voluntários, que cooperam com entidades públicas e privadas, instituições de solidariedade, associações e paróquias, em áreas tão diversas como o apoio à deficiência, o desenvolvimento socio-económico, o desporto, a educação, a cultura, o ambiente, o associativismo, a saúde…

E se é certo que à crescente formação cultural dos jovens corresponde crescente disponibilidade para o voluntariado, certo é também que neste se envolvem todos os escalões etários e todos os níveis de formação. O voluntariado é, por si mesmo, factor de inclusão e gerador de igualdade.

Não posso deixar sem uma referência a missão que a Casa da Juventude vem desempenhando na promoção do voluntariado, e não só através da Bolsa Concelhia de Voluntários. A promoção, a mediação, a formação e o apoio (a voluntários, a entidades, a projectos) são os campos em que se desdobra a acção dos nossos técnicos, apostados em valorizar a acção dos voluntários que, ao disponibilizar-se para servir, têm (ou depressa adquirem) consciência de que o trabalho no terreno requer, muitas vezes, conhecimentos específicos que não possuem.

Quero, neste dia especialmente dedicado ao voluntariado, destacar e agradecer, muito particularmente, a dedicação fraterna daqueles que, nas instituições de solidariedade, nas associações dos bairros e das freguesias, nas organizações sociais da igreja ou de forma individual e anónima, todos os dias dão um pouco (ou muito) de si, em bens materiais ou em tempo, para melhorar a condição do vizinho ou do desconhecido. É com todos estes contributos que se constrói o município de bem-estar que a Póvoa de Varzim crescentemente é. A todos, muito obrigado – pelo que fizeram e pelo que continuarão a fazer.

 

       

 

 Póvoa de Varzim, 5 de dezembro de 2014

O Presidente da Câmara,

Ass-Aires Pereira

Aires Henrique do Couto Pereira