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O verso “Nesta manhã eu recomeço o mundo” foi o tema da Mesa 4 que esta manhã reuniu Abraão Vicente, Cesáreo Sánchez Iglesias, Cristina Carvalho, Joana Bértholo e Nuno Júdice, com moderação de Michael Kegler.

Antes de dar início às intervenções, o moderador leu o poema “Ingrina” de Sophia de Mello Breyner Andresen de onde foi retirado o verso.

O Ministro da Cultura de Cabo Verde foi o primeiro a intervir e para assinalar o Dia Internacional da Língua Materna (21 de fevereiro) fez questão de saudar a plateia em crioulo. Partiu, depois para uma análise da sociedade em que vivemos, de “transparência da invisibilidade”, sem afetos: “não há como começar o mundo com afetos que não mudam o nosso mundo”.

Para Abraão Vicente, “há espaços sagrados que deviam ser guardados da banalidade, da volatilidade, das opiniões de circunstâncias, dos programas eleitorais e de todos os afetos que não permanecem: nossas ruas, nossas gentes, nossas cicatrizes, nossas mães, nossas crianças sagradas”.

O poeta terminou referindo-se ao “amor que dura para sempre, o afeto da pátria, do chão que fica, regressa aos tempos das aldeias e das luzes apagadas às seis da tarde. Hoje, o céu das estrelas, a infância, o sonho, aí sim o tempo em que nesta manhã eu recomeço o mundo”.

E de Cabo Verde passamos para a Galiza, na voz de Cesáreo Sánchez Iglesias que se debruçou sobre as memórias: “segundo cada idade minha, a luz tem distinta densidade. Fui aprendendo e desaprendendo daquilo que me lembro e fiquei sendo, tão só, o eco das minhas lembranças que são pegadas com as quais construo o presente”.

Para o Presidente da Associação de Escritoras e Escritores em Língua galega “em toda a parte as cidades mudam com estéticas uniformadoras, mas permanecem os sons, as cores que determinam as variações da luz, permanecem as poéticas da luz”.

Revelou que ao escrever a sua alocação “estou a visitar na memória lugares desta terra que é também minha, que faz parte da minha biografia, parte determinante da minha memória emocional. Ao fazer de novo esta viagem, estou a retornar por caminhos que andei e recomeço uma escrita. Construo cada momento deste presente no passado. Recomeçamos porque nascemos nus na memória dos sentidos ou porque a memória é um ser vivo, a memória do corpo, um ser independente de nós mesmos que alimentamos e nos alimenta. A lembrança está feita de realidade imaterial que algum dia existiu”.

E da Galiza chegamos a Portugal e no feminino com Cristina Carvalho que explanou as suas considerações sobre o verso: “Nesta manhã eu recomeço o mundo, com dificuldade, é certo, com alguma poética, posso dizer, posso imaginar que a manhã cresce imensuravelmente todos os dias e sempre sob o dedo acusador da enorme mão do criador, esse dedo que me aponta desde que a terra existe tudo o que faço de bem e de mal”.

A autora referiu que “nunca consegui coexistir sozinha. Posso morrer sozinha, mas não posso nascer sozinha. Portanto, nesta manhã eu recomeço o mundo, sim, eu e todos, velhos e novos, próximos e longínquos, interessados e desinteressados, pobres e ricos, recomeçamos o mundo todas as manhãs e quem não o fizer é porque ainda não existe”, acrescentando que “encontra-se tudo num novo recomeço, desde a luz inicial a todas as trevas, desde a paz à guerra”.

Acabar e começar foram os vocábulos que Joana Bértholo escolheu para dar início à sua intervenção em que referiu que sente que já foi tudo dito há séculos, há milénios, recorrendo ao filósofo Heraclito que “não só nos mostrou que o caminho é sempre o mesmo tanto para quem sobe como para quem desce”.

Na sua opinião, “vivemos condenados ou abençoados a que tudo seja uma primeira vez mesmo quando uma repetição. Dessa inevitabilidade podíamos até partir para o exercício supérfluo de dividir o mundo, já por si tão extensamente dividido, entre aqueles que o interpretam como uma sucessão de primeiras vezes e os outros para quem qualquer primeira vez é como que uma espécie de mal necessário ou um preço a pagar pelo prazer da revisitação”.

Joana Bértholo reconheceu que “é na literatura que encontro a casa da imaginação”, acrescentando que “a imaginação é, de tal forma, uma ferramenta poderosa e perturbadora que quase me é possível imaginar o dia em que a terra, numa manhã só dela, começa o mundo sem nós”.

O último interlocutor desta mesa foi Nuno Júdice que centrou a sua abordagem ao verso de Sophia de Mello Breyner na palavra “manhã” e na sua utilização na poesia portuguesa, recuando à poesia galaico-portuguesa: “nos Cancioneiros, há um género poético que são as albas (madrugada)”, constatando que “madrugada e manhã são conceitos um pouco diferentes em termos poéticos, ou seja, madrugada (tempo mais curto) é um verso e manhã (muitos momentos) uma estrofe”. O autor leu algumas Cantigas da Idade Média em que estes conceitos aparecem com frequência.

Terminou constatando que “hoje, a melhor maneira de recomeçar o mundo é com a poesia” e, nesse sentido, leu um poema da sua autoria intitulado “Aula de Poesia”, “lembrando também os muitos anos em que eu recomeçava o meu mundo de manhã a dar aulas a alunos que estavam muito ensonados”.

Acompanhe o 20º Correntes d’Escritas no portal municipal e no facebook Correntes. Consulte o programa completo do evento e fique a par de todas as novidades.

Procissão de Nossa Senhora do Rosário: trânsito condicionado

No dia 9 de outubro, a Póvoa de Varzim recebe a procissão em honra de Nossa Senhora do Rosário.

Importando garantir adequadas condições de segurança dos arruamentos integrados no trajeto da mesma, o Município alerta a população para os condicionamentos de trânsito no dia da procissão, a partir das 16h00.

Assim, estará interdita a circulação de trânsito e o estacionamento de todos os veículos nas seguintes artérias da cidade: Rua da Igreja, Rua do Visconde, Largo Eça de Queirós, Praça do Almada, Rua Dr. Sousa Campos, Praça da República, Rua da Junqueira, Largo Dr. David Alves, Rua da Alegria, Avenida Mouzinho de Albuquerque, Largo das Dores e Rua de S. Pedro.

Noite de Fado na Fonte da Bica: alterações ao trânsito automóvel

No dia 1 de outubro, o Grupo Recreativo Estrela do Bonfim vai realizar a Noite de Fado na Fonte da Bica.

De modo a garantir as adequadas condições de segurança dos arruamentos integrados no decorrer do espetáculo, o Município alerta a população para a interdição da circulação de trânsito automóvel na Rua Fonte da Bica, entre as 21h30 e as 23h30 de amanhã.