Claudia Piñero, nascida em Buenos Aires, Argentina, participa pela primeira vez no Correntes d’Escritas, motivo pelo qual “nunca tinha sido convidada para falar tendo por base a frase de um poema. Não estou habituada a títulos de mesas como este. Foi uma surpresa que me provocou inquietude porque os temas são sempre tradicionais”.

Segundo Claudia Piñero “primeiro cria-se a obra e depois reflete-se sobre ela”. A autora afirmou que quando escreve não pensa no género da sua literatura e sublinhou estar “metida num grande mal-entendido”. Isto porque é rotulada como escritora de policiais quando, na verdade, apenas se apercebeu dessa hipótese quando começou a ser convidada para festivais do género. As perguntas sobre o género que se debruçava chegaram depois, “quando vieram as editoras, os editores e as livrarias”. Claudia Piñero questiona se todas as obras que têm um detetive, uma morte ou uma dúvida é um policial. “Obras como a Bíblia, Crime e Castigo e Hamlet são, então, policiais”.

“Este mal-entendido levou-me a refletir sobre os tipos de literatura”. A autora argentina pergunta: “quem escolhe o género? A editora, a equipa de marketing ou o leitor?”. Sobre a sua experiência, Claudia Piñero afirma: “não penso, apenas escrevo”.

Germano Almeida, nascido na Ilha da Boavista, Cabo Verde, começou por dizer que “não preciso de ser torturado para confessar o meu prazer em regressar à Póvoa de Varzim”.

O cabo-verdiano, ao ler a frase escolhida para dar mote à Mesa, lembrou-se de uma história que se conta na Ilha do Fogo onde, há décadas atrás, “os ricos, principalmente os brancos, não se misturavam com os pobres, principalmente se fossem pretos”. Nesta história, “um fidalgo resolveu fazer uma festa em sua casa e convidou muita gente. A meio dos festejos, cansou-se de ver tanta gente na sua casa. Quando dois convidados se desentenderam e começaram a brigar, ele gritava: ambos na rua. Os restantes convidados levaram-nos para fora mas o proprietário da casa continuava a gritar: ambos na rua. Até que alguém lhe disse que os dois homens já tinham saído. Aí, o proprietário da casa disse: quando eu digo ambos na rua estou a dizer todos na rua”. Com esta história, Germano Almeida quis transmitir a ideia de que “as palavras têm o sentido que nós lhes queremos dar”.

“As palavras podem confessar e, às vezes, sem grandes torturas. Entre nós e as palavras há hélices que andam e podem violar-nos, levar-nos à morte”, continuou o escritor. Sobre democracia, Germano Almeida sublinhou que é mais do que uma palavra. “É um conceito. E o conceito que mais tem sido pressionado e maltratado”.

Luís Carmelo contou que viveu na Holanda durante alguns anos e a grande diferença cultural que encontra com Portugal é o facto de “nós sermos confessionais e as culturas protestantes aprenderam a não o ser. Confessar não é dizer. É ser levado a dizer”. Esta diferença, segundo o escritor, leva a que os holandeses sejam mais pragmáticos enquanto que os portugueses são mais propícios à burocracia, a discursos inúteis.

Para Luís Carmelo existem três “eus modernos”: o romântico (o poeta vê a natureza como símbolo para algo além dela. O poeta é Deus, interpreta), o eu que cinde consigo mesmo e o eu das travessias.

“A confissão não é apenas um fenómeno religioso mas também literário”, concluiu o escritor.

Finalmente, Rui Zink afirmou que “quando penso em tortura e confissão penso na alegria e na dor como opostos. A tortura causa dor e a confissão pode causar alegria. Na vida estamos sempre na corda bamba, entre a alegria e a tristeza”.

O poema de Miguel Manso, do qual foi retirada a frase que deu mote à Mesa, “faz um pouco de troça dos escritores que pensam que se forçarem as palavras acaba por sair algo de jeito”. Mas, contrariamente à expressão 90% de transpiração e 10% inspiração, Rui Zink considera que ambas são necessárias em igual medida. E lembrou uma frase de Picasso: “a inspiração existe mas apanha-me sempre a trabalhar”.

O escritor sublinhou que “o silêncio não é de ouro. É quinquilharia. O nosso dever é continuar a falar. É dizendo asneiras que depois encontramos ouro. É preciso garimpar para se encontrar uma pepita”.

“Pensamos sempre na tortura como forma para chegar à confissão. Confessar é aliviar os nossos pecados. Os pecados são as batatas, lavar a alma é a carne”.

Zink terminou apresentando à plateia cada um dos seus gatos, a tal alegria que faz parte da vida. Afinal, “gatos fofinhos são mais importantes do que as palavras e a literatura”.