Com moderação de José Carlos de Vasconcelos, os escritores Afonso Reis Cabral, Ana Paula Tavares, Carmen Yáñez, Eucanaã Ferraz, Filipa Leal e João de Melo debateram o tema “A utopia só não se atinge porque, na viagem, nos apeamos demasiado cedo” nascido do imaginário e da memória desta obra que celebra a vida e o pensamento do jurista, professor universitário, deputado e escritor falecido em 2025.

Coube a Afonso Reis Cabral dar o pontapé de saída na primeira mesa desta edição do festival literário. O atual presidente da Fundação Eça de Queiroz manifestou “preocupação pelo edifício frágil que constantemente temos de cuidar dentro de nós, o aperfeiçoamento do nosso espirito”, num tempo em que “assistimos a uma enorme degradação da nossa convivência e espaço comum”. O autor vê como “excesso de otimismo suspirar por paraísos perdidos, pela retidão e profundidade” ao serviço de todos, pois, atualmente, o “espaço público fecha-se cada vez mais num nó de suspeita e acusações, vestido de moralismo e indisfarçável má educação”.

Em concordância com a visão pessimista de Afonso Reis Cabral, Carmen Yáñez vê a democracia ameaçada pela atual realidade geopolítica e pelo “vírus do negacionismo”, que “arrasa todo o progresso com o seu discurso cínico e frio sobre a distribuição deste mundo”. Para a escritora chilena, os seres humanos são “prescindíveis, descartáveis e mercadoria barata” nas “mãos do absurdo e da desumanização” dos atuais “tempos obscuros, em que quase percebemos o odor de uma catástrofe iminente”. Como resposta, “a utopia é o único caminho”.

Para Ana Paula Tavares a “utopia está lá no horizonte. Aproximamos dois passos e ela recua dois passos”. Quando o mundo se apresenta “sombrio”, “somos os que não podem desistir da utopia”, através das palavras, pois “somos nós, os das palavras, que havemos de criar um lugar onde a esperança se recuse a morrer” e onde possamos viver “sempre a desejar o impossível”.

Como poeta contemporâneo, Eucanaã Ferraz vê a utopia como “um problema tão antigo como atual, tão dispensável como necessário, tão justo como inadequado”. No entanto, em sua opinião, “apear antecipadamente seria desistir do poema, não o escrever”, porque “o lugar a chegar é o próprio poema e fora dele não há nada”.

Na sua intervenção, Filipa Leal refletiu sobre todas as “utopias que nunca atingimos por sairmos cedo demais, e não por sairmos mais cedo”. “Neste jogo”, segundo a escritora, argumentista e jornalista portuense, “o mesmo se poderá aplicar ao gesto contrário, o de entrar mais cedo, em vez de entrar cedo demais”, concluindo que Álvaro Laborinho Lúcio tem razão na frase que deu tema ao debate na sala de espetáculos poveira, com a exceção da democracia, da qual não nos devemos apear “nem cedo demais nem mais cedo”, de onde “convém não nos apearmos nunca”.

João de Melo abordou a utopia pelo “prisma do romantismo”, considerando que “somos leitores num país avesso como poucos à arte que ainda designamos como literatura” e que “cremos nela, porque a concebemos como explicação e amparo para a nossa vida e para o género humano”. Para o escritor, não seria viável “um mundo sem música, teatro, cinema e a literatura” e “sem os sons, as formas, a luz e a paixão” presentes através da cultura no nosso imaginário coletivo.

É tudo isto e muito mais que pode encontrar no Correntes d’Escritas. Acompanhe a 27.ª edição do Correntes d’Escritas no Portal, no Facebook e no Instagram. Consulte o Programa completo ou o Dossiê de Imprensa.