Com moderação de Carlos Quiroga, o debate juntou Amélia Muge, Berta Dávila, Gabriela Wiener, José Gardeazabal e Manuela Ribeiro, que, em representação de Hélia Correia, principiou a conversa com a leitura de um texto da autoria da escritora galardoada com o Prémio Camões, em 2015.

Para Hélia Correia, atualmente, “o lodo apodrece” as palavras cheias de semente, de tal forma que “não vemos possibilidade de geminação”. Tudo o que sabemos, é que “existe um futuro do qual nada sabemos, a não ser que é feito de outra natureza”, onde, “na vertigem fomos sugados velozmente para trás, para o tempo das trevas e do perigo, do desconsolo extremo e assassinatos rituais”. Nas palavras da escritora, “sofremos e lutamos ao longo de milénios para nos livrarmos desta condição” e, agora, basta “uma pequena falha para, de novo, nos vermos sem calor, sem luz e sem alimento, sob o poder de um chefe que a poder de urros mobiliza os machos e escraviza as mulheres”.

Com uma intervenção musical introdutória, a cantora Amélia Muge discorreu sobre a importância de a literatura ser “a água num regador”, que garanta a palavra dada, preserve a literatura oral, as canções tradicionais e “a promessa da palavra”. Neste sentido, destacou o papel do Correntes d’Escritas, que, ao fim de 27 anos, é já um ideal de “garantia de futuro” e de “natureza que vai sempre voltar”.

Com seis notas, e viajando entre gerações, Berta Dávila refletiu sobre o galego, permanentemente “em disputa pela hegemonia como língua viva, excluída dos poderes de espaço e prestigio” e em constante reclamação por “um lugar num mundo que pode ser nomeado de mais de uma maneira”. Neste “conflito aberto sobre a pertença”, o idioma “não pode ser dado como garantido”, pois vive na “incerteza” e no “medo de perder algo, (…) que é nosso, mas que nunca o é totalmente”. A finalizar, a escritora galega sublinhou que “há coisas que sabemos como se escrevem, mas não sabemos escrever”.

Gabriela Wiener questionou o porquê de já não bastar a existência da palavra e se esta terá hipótese de sobrevivência depois de tanto ser usada e “gasta”. A escritora peruana sente que “há dias em que a nossa palavra transforma”, mas “outros em que me atormenta a sua inutilidade. Há dias, quase todos os dias, que vejo genocídios e misoginia, (…) injustiça e impunidade”. Neste sentido, questionou: “como nos salvamos do esgotamento da palavra? E como criamos uma língua que nos redima?”.

A concluir o debate, José Gardeazabal ofereceu a descrição da palavra como “testemunho” e como “chicotada”. Se “a literatura pode contar coisas inomináveis”, olhar o mundo e oferecer uma descrição crua e realista, também pode, na opinião do autor, funcionar como “chicotada da realidade”, coexistindo entre dois polos extremos.

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