Com moderação de Manuel Alberto Valente, esta mesa reuniu os autores Fernando Cabrita, Germano Almeida, Inês Pedrosa, Mafalda Veiga, Pedro Vieira e Uberto Stabile.

Na sua intervenção, Fernando Cabrita, natural de Olhão, revelou ao público curiosidades sobre a família de Álvaro Laborinho Lúcio e também sobre a sua, com laços familiares em comum.

Em jeito de homenagem, recordou o jurista e professor universitário como uma das pessoas que tem orgulho em ter convivido pelo uso rigoroso que fazia da língua portuguesa: “a forma como ele falava e escrevia o português, com rigor, sem exageros, tudo era uma lição para os que se pretendem hoje modernos com recurso a estrangeirismos”. Neste sentido, alertou que “estamos a fazer mal à língua portuguesa” e sublinhou que “as palavras se extinguem por falta de uso”, destacando que “o território comum que nos une a todos é a nossa língua”.

Germano Almeida evocou o escritor falecido em 2025 como “um homem de convicções” e destacou que, tal como remete a frase “Ninguém nasce de uma vez”, Laborinho Lúcio apresenta o seu próprio exemplo de um homem em construção até chegar ao homem que conhecemos no Correntes d’Escritas.

Reconhecendo-o como “um homem profundamente humano”, Germano Almeida constatou que “estes homens vão rareando entre nós e muita falta fazem à sociedade”.

Na sua comunicação, Mafalda Veiga versou sobre o tema “nascer em todos os sentidos”, recorrente da literatura, transmitindo que “eu própria já senti que nascia outra vez: lembro-me de ter nascido para a minha autodeterminação; nasci para a noção de política, quando nasceu dentro de mim uma feminista convicta; nasci para a noção de pertença, quando regressei ao Alentejo enquanto compositora”. Em suma, “nasce-se para o recomeço. Muitos nascimentos e muitas perdas”.

Inês Pedrosa começou por falar no amor, que “é contagioso e é incurável. Quanto mais vivo, mais o sinto”. E por isso, quis dizer que “todos os que aqui voltámos todos os anos, amámos Francisco Guedes, e por isso ele continua vivo entre nós. Muitos dos que aqui voltámos todos os anos, porque nem todos o conheceram, amámos Laborinho Lúcio e Nelson de Matos, e Clara Pinto Correia, só para falar dos que desapareceram, há menos de um ano, dos que desapareceram da última edição para esta, e que fizeram parte deste milagre que são as Correntes. Estes continuam a nascer dentro de nós todos os dias, porque enquanto aqui estivermos, nos lembrarmos do que conversámos e do que aprendemos com eles, e do que eles nos amaram e nós os amámos, e do que nos deixaram, e continuarmos a visitar as páginas deles, continuarão vivos”.

A jornalista e escritora assumiu que procura evitar participar no presunçoso, penoso e popular espetáculo do “No meu tempo é que era bom” e reconhece que o diálogo e tolerância acabaram com as discussões, o que definiu como “cremação do pensamento, que tanto me dói”, pois da discussão nasce a luz.

Pedro Vieira referiu-se ao tema do nascimento como um milagre que salva o mundo: “agimos porque nascemos e vamos nascendo sucessivamente”. Contou a história de vida do seu pai para comparativamente reconhecer que “nascido livre, sou menos livre do que o meu pai”, uma vez que vai “vivendo a vida dos outros”, através da escrita. E a este propósito, citou a personagem do seu livro “Vénus em Chamas”, Lúcia de Jesus, que precisava que a deixassem ir nascendo porque viveu muitas décadas presa e não teve oportunidade de contar-se.

Para Uberto Stabile, que desde 2008 marca presença no Correntes d’Escritas, nascer é uma experiência reiterada. Nascemos quando fracassamos, nascemos uma e outra vez perante a adversidade. Somos pequenas gotas de eternidade. Por isso, assumiu que nasceu muitas vezes, pois cada etapa do crescimento pode entender-se como um novo nascimento simbólico. A nossa identidade é uma construção dinâmica que se transforma com o tempo. Aprender implica transformar-se porque cada aprendizagem é um nascimento. Viver é uma sucessão de nascimentos éticos.  Nascemos cada vez que cruzamos uma fronteira interior ou exterior. A vida humana é como uma sucessão de nascimentos, logo o ser humano é como um ser inacabado, sendo cada experiência como uma oportunidade para nascer outra vez.

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