Na sala principal do Cine-Teatro Garrett, Inês Bernardo, Itamar Vieira Júnior, Miqui Otero, Onésimo Teotónio Almeida, Rosário Villajos e Rui Zink prestaram, assim, homenagem ao escritor, jurista e professor universitário falecido em 2025 e presença assídua no seu tão querido festival literário de expressão ibérica. A moderação esteve a cargo de Maria Flor Pedroso.

Rui Zink destacou a justiça de homenagear Álvaro Laborinho Lúcio, “um cidadão” e exemplo de justiça e humanismo “em todos os aspetos da sociedade portuguesa”. Relativamente ao tema, o autor discordou da frase destacada, considerando que “a vida é sempre uma roda dentada”, onde nada é essencial, “tudo é circunstancial” e exemplificou com o nascimento de um bebé num cenário de calamidade, que não permite que a mãe deixe de estar feliz. Para Rui Zink, “o essencial não é uma coisa essencial. Saber onde estamos e para onde vamos é importante na vida, mas na ficção e na vida pessoal não é o mais relevante. (…) Nunca sabemos onde estamos nem para onde vamos, mas precisamos de saber para onde queremos ir.”

Sentindo o “peso da responsabilidade”, Inês Bernardo descreveu-se como “filha dos anos 80”, de uma “forte consciência da importância de Abril nas nossas vidas” e de um país “que deu saltos formidáveis e correu sempre na cauda de um continente”. Herdeira “de uma geração de mulheres que viviam com a ausência dos homens, que tiveram de assumir vários papeis (mãe, pai, provedora, disciplinadora, contabilista e gestora), sem possibilidade de se exprimirem, assombradas com o sermão do padre em latim e vestidas com o negro do luto”, a escritora ilhavense entende que necessitamos de “resgatar essas memórias”, essa “cartografia do passado” para abraçarmos um futuro de mulheres construtoras “do nosso tecido social” e capazes de “erguerem as suas vozes para falar”.

Com um “olhar para o mundo à nossa volta”, de surpresa e consternação, Itamar Vieira Júnior resumiu o tema da Mesa à “epopeia humana”, de “contar o tempo antes, durante e depois de um evento”, de “desejar a equidade” e, nesse processo, de “ilusão com a falsa certeza que podemos ter o domínio de tudo o que vive”. Na opinião do autor brasileiro, “vivemos tempos de grandes alienações” e de “ênfase nas diferenças”, sobrecarregados por uma informação tecnológica “sedutora e nebulosa”, que “vai forjando a ilusão de comunidade”. O resultado desta linguagem de “comunicações breves, aceleradas, de textos superficiais e de uma falsa interlocução estabelecida com o artificio humano” é o esquecimento “do chão que pisamos”, que provoca, para Itamar Vieira Júnior, uma “crise da narrativa”, que premeia a redução da linguagem e a pobreza do desprezo pelo outro.

Em concordância com o palestrante que o precedeu, Miqui Otero ressaltou que, “para entender a história”, necessitamos de “memória e imaginação”. De reconhecer os “lugares pisados anteriormente” e de fazer “novos planos ante lugares e situações “desconhecidas”. No contexto atual, em que “delegámos a nossa memória coletiva e pessoal e colocámos a nossa imaginação e capacidade humana para fabular na inteligência artificial”, somos punidos, como sociedade, com um mundo que recompensa quem não duvida, porque a dúvida “é um atributo de inteligência e requer tempo”. Como resultado final, nas voz do escritor catalão, “ganham e mandam os piores”.

Na sua intervenção, Rosário Villajos abordou a “questão decisiva” encerrada nas páginas de Álvaro Laborinho Lúcio: “não pode haver esperança sem uma base que a sustenha”. A frase que coloriu a discussão no Cine-Teatro Garrett fala, para a autora espanhola, “de uma sucessão de dias difíceis, de um tempo que deveria ser findo, ainda nem enterrado e que, de cada vez que queremos enterrar, parece que enterra a nossa forma de viver”. Essa promessa de “sairmos melhores” de uma época de agruras só poderá ser alcançada se pararmos de fingir “que o que sabíamos antes era evitável” e se deixarmos de normalizar “o que nunca devíamos ter normalizado”, sublinhou.

A finalizar a discussão na Mesa 10, no seu “suplício de Sísifo de encerrar o Correntes d’Escritas”, Onésimo Teotónio Almeida pediu inspiração a quem “foi sem se despedir”, Álvaro Laborinho Lúcio, para que lograsse “glosar decentemente, como ele merece, o tema desta mesa, inspirado num dos seus belos livros”.

À questão “onde estamos?”, Onésimo responde com “o desmoronamento das crenças mais básicas que sustentam o edifico da sociedade ocidental”, construída “peça a peça” e que se desabar irá forçar o regresso à “lei da selva”. “Pobres de nós” se tal se confirmar, liderados por Trump e por todos os “filhos da escuridão, que não conhecem nenhuma lei para além do seu ego”.

Para onde vamos? O escritor açoriano admite não saber, mas afiança uma resposta à pergunta “para onde devemos ir?” Manter “acesa a esperança”, “não desistir da luta” e prosseguir no combate “para que não destruam o trabalho dos nossos predecessores”, que ofereceram, com todas as suas falhas e defeitos, “um estado moderno capaz de suster valores essenciais” e oferecer “anos de paz”. Tal só será possível defendendo a democracia e homenageando o exemplo e o legado de Álvaro Laborinho Lúcio. 

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