A Mesa 7 do Correntes d’Escritas desafiou, ao final da tarde de sexta-feira, os autores convidados a refletirem sobre “Onde, ou até onde, mente ou pode mentir o escritor”, frase do livro A Vida na Selva de Álvaro Laborinho Lúcio.
Com moderação de Jaime Rocha, esta mesa juntou Jorge Reis-Sá, Jorge Sousa Braga, Lélia Nunes, Ondjaki, Patrícia Reis e Rui Couceiro.
O biólogo Jorge Reis-Sá abordou o tema com base em teorias de Mendel e de Lineu para dissecar todas as hipóteses, o que levou a concluir que “um escritor de não ficção não pode mentir a si mesmo, não pode, em sítio nenhum, nem até sítio ou grau nenhum, mentir a si mesmo. Um escritor tem obrigatoriamente de ser honesto consigo mesmo. Não falo, é claro, de ser fiel aos seus sentimentos, honesto ao que está a sentir, nos seus propósitos. Saber o que faz, e saber para quem o faz, e como o faz, e a razão por que o faz para cumprir o desígnio a que se propôs. Para um escritor, a honestidade é a pedra basilar de um texto sério”. Quanto ao escritor de ficção, este pode mentir até ao fim ao seu leitor e “no fim, achar o mar. Que sendo o melhor mar possível, só pode ser este, que tinha a Sopete e o Setor 32 e se chama o mar da Póvoa”.
Já Jorge Sousa Braga fez um périplo pelas mais variadas figuras filosóficas e literárias, desde Platão, talvez o primeiro a dizer que “todos os poetas são mentirosos”, passando por Aristóteles, Nietzsche até Fernando Pessoa quando diz que “O poeta é um fingidor” para se contrapor a esta ideia, afirmando que “repugna-me a ideia de poeta como mentiroso”. Para si, “a poesia é um espaço de liberdade e a liberdade não coexiste com a mentira”.
Lélia Nunes recordou a admiração e saudade que tem por Laborinho Lúcio e partiu para a sua história partilhada com muita ironia para demonstrar como a realidade pode ser alterada do modo como for contada. A escritora brasileira assumiu que “é verdade que o escritor parte de uma premissa verdadeira e constrói a sua história, recupera a memória, usa o seu imaginário, cria metáforas, constrói aforismos, inventa palavras, sílabas, símbolos e nos fascina”, concluindo que “uma conceção literária e cultural são uma realidade autêntica onde a língua é o maior património”.
Remetendo-nos para as suas origens, Ondjaki deliciou a plateia com uma carta que optou por escrever para falar da saudade, da pureza e do mar: “o tempo tinha acabado de nascer e ainda não havia palavra para dizer mentira, nem dor, nem sal, já o mundo havia estreado a palavra lágrima. Ainda anda ali tão perto o mar para purificar os pesadelos, trazer recados simples…”
Patrícia Reis falou da imaginação inerente à idade infantil e a inquietude que pode provocar pelo que põe em causa. Já nos adultos, no uso comum, a mentira é algo deliberado, é manipulação, mas a mentira literária é toda uma outra coisa: “a literatura mente para esconder, mente para revelar”. A autora d’ O Lugar da Incerteza, lançado hoje no Correntes, entende que a mentira literária diz, desde o início, que é ficção e “nessa transparência há uma honestidade rara” e respondendo à questão do seu amigo Laborinho Lúcio afirmou que “o escritor pode mentir até onde a sua imaginação o levar, mas não pode abdicar da sua honestidade interior”.
Tal como Patrícia Reis, Rui Couceiro também distinguiu a mentira dita para enganar quem não conta com ela da mentira literária em que quem recebe a história sabe e aceita estar perante uma invenção.
Para o editor, a tarefa do escritor é “inventar de novo a realidade para a mostrar de forma mais clara, mais nítida”. Na literatura, “a mentira e a invenção são úteis na medida em que permitem mostrar melhor a realidade”.
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