Com a moderação de João Gobern, Ana da Cunha, Jessemusse Cacinda, Patrícia Portela, Paula Agostinho, Rosa Alice Branco e Sandro William Junqueira foram desafiados a refletir sobre a frase “É, pois, também de restauro que deve ser o tempo novo”, do livro A Vida na Selva de Álvaro Laborinho Lúcio.

Coube a Sandro William Junqueira a primeira intervenção da mesa que se deteve numa analogia entre o amor e o vinho para evocar os encontros que o Correntes proporciona: “o cansaço da esperança encaminhou-me para o que me salva, o vinho e o amor. O vinho despertou-me para a vida. Passamos a ser um outro que também nos habita e só o vinho reconhece. Para mim, a vida é vinho e vinho é amor. O amor passa de nome em nome, de mão em mão, como um vinho muito antigo. O amor como o vinho encorpado não é uma coisa só. Querem um ato de amor? Bebam vinho”. O autor terminou desafiando: “Brindemos a estes tempos novos que já parecem também antigos, a quem ainda está connosco e a quem na verdade nunca parte, ao vinho, ao amor e aos livros, tantas belas desculpas para nos abraçarmos e não perdermos esta a esperança de que vale a pena continuarmos a conversar uns com os outros”.

Em estreia no Correntes d’Escritas, Jessemusse Cacinda, natural de Moçambique, falou da sua infância e tradições da sua terra, assim como dos ritos, fundamentos e língua. Para o seu povo, “os antepassados são entidades vivas que habitam o nosso corpo, a nossa alma e o chão que pisamos. Seguem-nos para onde quer que vamos, como a sombra anterior à luz. Porque no fundo viver é isso, é caminhar sobre um chão povoado de pertenças, algumas invisíveis e outras apenas pressentidas. E saber que a nossa história não começa connosco, mas termina na medida breve do nosso próprio nome”. Numa cerimónia de evocação dos antepassados, aprendeu que “os ancestrais não gostam de quem decidiu esquecer o português para aprender apenas o macua”, uma contradição impossível de resolver”, pois “primeiro, a língua portuguesa afastava-me, mas depois o seu abandono me excluía. Foi então que comecei a compreender, ainda que confusamente, que a identidade não se constrói por exclusão, mas por tensão, que talvez os ancestrais não reclamassem pureza, mas equilíbrio. E que o verdadeiro rito de iniciação não era escolher entre duas línguas, mas aprender a habitá-las sem trair nenhuma, como quem aprende a caminhar sobre duas margens sem cair no rio”.

Face à provocação que dá tema à mesa, Paula Agostinho, artista multidisciplinar, natural de Luanda, falou da realidade que viveu na juventude, em Angola: “lembro-me do silêncio do mundo perante guerras, dos cortes de luz e do medo que traziam”, identificando que pertenceu a uma geração que herdou uma educação socialista, acrescentando que “contorcemos a nossa individualidade para caber neste coletivo”.

A autora que lançou nesta edição do Correntes a sua primeira estória em livro A Coruja e a Baleia, fez o contraponto com a atualidade: “hoje, vemos as novas gerações a afirmarem o seu eu com uma coragem que nós nunca tivemos à mesa de jantar. Há mais cores hoje, mas não sei se sabemos pintar com todas elas”. Neste sentido, alertou que “o tempo não tem tempo de acontecer. Queremos antecipar tudo. Perdemos a coragem de perder o controlo. A pouca tecnologia de antes impunha-nos um abrandamento natural”. Terminou dizendo que “nem todo o passado é de se restaurar, mas todo o passado deve ser lembrado e para isso preservado nos testemunhos, documentos, fotografias… Se restaurar é procurar no escuro com uma lanterna, preservar é manter a luz acesa, sem cortes de energia”.

Outra estreante no evento, Ana da Cunha falou sobre a temática do seu mais recente livro, Sodade, um romance de personagens sonhadoras e resistentes, que nos conta como a amizade pode transformar a vida, passado em Porto Brandão, um lazareto que foi em tempos casa de mais de duzentas famílias vindas de Cabo Verde: o Asilo 28 de Maio, para retratar “os laços fortes que se quebram sobre a rapidez do dia a dia, com a privacidade das portas fechadas, com a falta de espaços para vivermos em conjunto, é sobre essa comunidade que aguarda restauro”.

“Cicatrizes renováveis – conversa com Álvaro Laborinho Lúcio” foi o texto carregado de carinho que Rosa Alice Branco optou por ler “sem ti, as cidades perderam muita da sua graça, a infinita gentileza e saber a toda prova que saía da tua boca”. Recordou-o “aqui, na Casa das Correntes, emerso na Casa Manuel Lopes, ainda sinto as tuas palavras a ecoar em mim e não quero que desfolhem, que caiam nunca e as Correntes não deixam isso. É pensar neste resgate de tempo que as Correntes seguram as hastes das palavras, das folhas do amor e cuidam das raízes do tempo novo. Cabe-nos a nós, construir o tronco e as folhas”. A poeta, ensaísta e investigadora terminou referindo-se à esperança e mudança: “teremos que inventar sempre, sempre e creio que é este o grande restauro para o tempo novo”.

Patrícia Portela referiu-se a toda “uma nova forma de pensar de hoje, pois, é também de restauro que deve ser todo e qualquer tempo novo”: “para facilitar, vamos começar com pequenas intervenções ao nível da matéria da arte, apenas para ganhar o jeito e a mestria, para logo a seguir passarmos a restauros mais complexos, como o restauro do quotidiano, o restauro da vida, o restauro dos livros, o restauro da escrita, o restauro do funcionamento cósmico dos dias, e por aí fora”. A autora continuou “procurando pronunciar o equilíbrio perfeito entre preservar e revela, nunca sucumbindo à tentação de alterar o rumo da pincelada original. Restaurar é recuperar, é reparar, é consertar, é restabelecer. Mas neste mundo pode-se restabelecer e restaurar e reparar e consertar muito mais do que construir ou edificar o que quer que seja e se deseja pela primeira vez. Portanto, sejamos sensatos. Pode-se refazer muito mais do que fazer apenas. Pode-se refazer muito mais do que fazer apenas”. Advertiu ainda que “nem sempre se restaura o que se quer, nem como se quer, mas durante o processo, muitos são os encontros com algo de verdadeiramente novo e que, no entanto, não foi feito pela primeira vez. Esta é toda uma nova maneira de olhar para a nossa ação, livres da obsessão da originalidade e do gesto único e exclusivo”.

A esta Mesa, seguiu-se um momento de homenagem a Francisco Guedes, “o pai do Correntes”.

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