Realizou-se, esta manhã, no Cine-Teatro Garrett a Cerimónia de Abertura do 27.º Correntes d’Escritas, promovido pela Câmara Municipal, e que contou com a presença da Presidente do Município, Andrea Silva.
Na sua intervenção, a Presidente da Câmara referiu-se ao valor da palavra: “aprendi que tudo está na palavra e que o seu uso na esfera pública deve ser parcimonioso para que não diga senão o que deve dizer, porque a palavra responsabiliza. Constato com mágoa e preocupação que o seu mau uso pelos agentes políticos é a principal causa do descrédito nas instituições democráticas em todo o mundo. Pelo que me diz respeito, recuso-me a contribuir para a degradação do espaço onde me movo”.
Andrea Silva alertou para o perigo dos tempos atuais em que “o sistema digital, as redes sociais e a inteligência artificial conjugados instalaram o caos e um tecnopopulismo autoritário e predador. É assim que estamos, em sociedades crescentemente polarizadas, num mundo em que as autocracias predominam, num tempo em que a moderação é vista como indecisão e falta de coragem. E não como fator de resistência democrática à simplificação e à desinformação. Os tempos vão maus para todos nós”.
A autarca manifestou a sua inquietude relativamente ao dano causado pela tecnologia na humanidade: “hoje qualquer pessoa pode, a partir de casa, chegar a milhões de outras mais do que dantes os grandes meios, alguns hoje desacreditados ou em agonia. Eu quero um mundo em que os livros e os autores continuem a dar-nos a capacidade de repensar o futuro que, por ter cada vez mais pressa de acontecer, exige uma capacidade de discernimento, de imaginação, digamos, só ao alcance de quem sabe administrar o tempo a uma diferente velocidade. Essa é a vocação do escritor. Essa é a capacidade da leitura. Autores e leitores conscientes da capacidade redentora da literatura como forma de paciência e de meditação”.
Andrea Silva terminou evocando Álvaro Laborinho Lúcio, em jeito de homenagem e desafio: “Que não nos aliemos do mundo onde medra o radicalismo. Que não deixemos o campo de batalha ao dispor do inimigo que cresce nesta cultura niilista, especialmente entre os jovens. Que pensemos nos problemas sistémicos que a sociedade enfrenta e nas ferramentas de que dispõem os inimigos da democracia, que são os nossos inimigos comuns”.
Um momento sempre importante desta cerimónia é o lançamento da Revista Correntes d’Escritas n.º 25, que este ano homenageia uma figura ímpar da cultura portuguesa, José Carlos de Vasconcelos.
O homenageado agradeceu à Póvoa de Varzim, “terra de coração, fundamental na minha vida e no meu percurso” acrescentando que vê a Revista que lhe é dedicada como “um ato de generosidade dos meus amigos da Póvoa”. José Carlos de Vasconcelos manifestou ainda a sua gratidão “a todos os que tiveram a amabilidade de escrever sobre este pobre jornalista, advogado, cidadão e poeta poveiro”.
Em representação dos escritores, Raquel Patriarca evocou Francisco Guedes, “o pai das correntes, um amigo querido, um sábio ancião da nossa tribo”: “o Chico trazia uma calma incomum aos gestos que fazia, como se todas as coisas que precisassem de ser feitas a correr não precisassem de ser feitas de todo. Era doce, muito doce, e ao mesmo tempo senhor de um inabalável mau feitio que o impedia de fazer qualquer espécie de frete ou de compreender a função do politicamente correto”.
A escritora reconheceu que “em 25 anos de correntes e de outras sementes, o Chico mudou a forma como neste país nos relacionamos com a literatura. Existe seguramente um mundo antes do Chico e um outro, diferente e muito melhor depois dele”.
Quanto aos Concursos Literários, o texto A Cronista de Um Vazio Interior de Ana Rita Gouveia Paiva, que concorreu com o pseudónimo de Almalivre, foi o escolhido para o Prémio Literário Correntes d’Escritas Papelaria Locus.
Em relação ao Prémio Luis Sepúlveda, foram distinguidos os autores dos seguintes trabalhos: primeiro lugar: “A Caixa das Emoções”, do 4.º ano da Escola Básica de Rates; segundo lugar: “Desenhos de Peluche”, do 4.º C do Agrupamento de Escolas Dr. José Leite Vasconcelos – Tarouca; terceiro lugar: “Luís e o Xadrez da Amizade”, do 4.º G do Agrupamento de Escolas de Gondifelos – Famalicão.
Foram ainda atribuídas as seguintes menções honrosas: Texto: “História de um Veado e do Lobo que o ajudou”, do 4.º A RO, do Polo Escolar de Rossas – Arouca; Ilustração: “Um verão muito trágico”, do 4.º A, do Agrupamento de Escolas Gomes Teixeira-Armamar, e “O menino que não sabia pensar”, do 4. º A, do Agrupamento de Escolas Dr. José Leite Vasconcelos – Tarouca.
Zina Maria Gomes de Abreu, que concorreu com o pseudónimo de “Esperança”, foi a vencedora do Prémio Literário Fundação Dr. Luís Rainha Correntes d’Escritas 2026, no valor de 2000 euros, com o trabalho “As ondas do ser”. As atas das reuniões do júri para seleção dos trabalhos a premiar estão disponíveis aqui.
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