“Agora que és grande, queres ainda ser o quê?” foi a questão que abriu o debate na manhã desta sexta-feira, no Cine-Teatro Garrett lotado. Retirada da última obra publicada de Álvaro Laborinho Lúcio, A Vida na Selva, foi o tema da Mesa 5 deste 27.º Correntes d’Escritas.
Afonso Cruz, Bruna Dantas Lobato, José Luís Peixoto, Raquel Patriarca, Rita Homem de Mello e Sergio Ramírez foram os autores desta mesa, moderada por Filipe Cardoso.
Coube a José Luís Peixoto, que há mais de 20 anos se estreou neste evento literário, a primeira intervenção da mesa e comunicou que “os escritores podem ser medidos de várias formas, nomeadamente, através da obra, trabalho feito, livros publicados. Os livros vão sendo publicados e vão permitindo uma visão da vida invulgar e extremamente organizada. É um desafio permanente. Sinto que quando escrevo um livro, tento colocar tudo o que consigo, ir o mais longe possível e ao mesmo tempo sinto que tenho que desistir de algumas ambições iniciais porque “ambição é desmedida”, no sentido em que com o livro quer mudar o mundo. “Tenho que lidar com a ideia de que o que escrevo destina-se a ser publicado e ficar exposto à crítica”, que entende como a interpretação, o entendimento de cada um daquilo que leu. Escrever, a partir de certa altura, é abdicar do controlo daquilo que construímos numa tentativa de entender os outros.
A escritora e tradutora brasileira, a residir nos Estados Unidos, Bruna Dantas Lobato começou por partilhar com o público que desde pequena quis ser escritora e ainda hoje quer ser escritora, além de Professora Universitária. Apesar de todas as contrariedades, acha-se privilegiada por poder escrever.
Sergio Ramírez optou por responder à questão revelando que percorreu um caminho que deu muitas voltas, desde quando queria ser escritor com 14 anos. Trata-se de um instinto ou ocasião como uma necessidade premente e a inspiração deve encontrar-te sentado a trabalhar. Vê-se “escritor até à morte”, e considera que “a memória e imaginação são premissas indispensáveis à escrita”. Recordou que quando começou a escrever, na juventude, era impaciente, pois pensava que o mundo estava ansioso por ler o que escreveu. “Escrevo por que se trata de uma necessidade”, à qual está subjacente a consciência ética e os princípios, um compromisso, “nunca me senti neutro”.
Rita Homem de Mello, que vai lançar o seu primeiro romance As Duas Amigas hoje no Correntes d’Escritas, falou da sua ligação à Póvoa de Varzim e à literatura com a qual conviveu desde sempre, sendo neta do poeta Pedro Homem de Mello: “adormecia a ouvir os seus poemas”.
A crítica literária confessou que a questão de Álvaro Laborinho Lúcio lhe tirou o tapete debaixo dos pés, desnorteou, algo que lhe agrada, e acredita que colocará às suas personagens.
A bibliotecária, escritora e contadora de histórias, Raquel Patriarca, interpretou o tema como “uma pergunta com parecença de muito mais”, a que responderia: “Sei lá, Álvaro, eu nem sequer sei se sou grande, nem sei que lugar me está guardado em destino”. Após uma viagem por várias aspirações, a escritora concluiu “agora que sou grande, quero ainda ser a pessoa que vês em mim e quero ainda ser tão contente por deixares que eu goste tanto de ti”.
À questão da mesa, o autor premiado Afonso Cruz começou por dizer que nunca quis ser escritor e leu dois poemas da sua autoria sobre a morte do autor e a invisibilidade que intitulou “A tragédia da poesia”. Partilhou ainda um texto que escreveu sobre a infância “Acreditemos ou não, já fomos crianças”: “É fácil de imaginar que Deus, quer exista ou não, tenha criado as árvores para as crianças subirem e para se lembrarem para o resto das suas vidas de como tudo é maravilhoso visto de cima de uma macieira. Talvez tivesse outros propósitos, porém este seria seguramente um deles. Mas um dia crescemos e espoliados dessa visão achamos que as árvores servem simplesmente para dar fruto, assim como achamos que os homens servem para dar dinheiro e poucos sobem a um pensamento para ver como a vida é bonita vista do lado de cima. Acabamos por instrumentalizar tudo, até a infância”.
Acompanhe a 27.ª edição do Correntes d’Escritas no Portal, no Facebook e no Instagram. Veja as Mesas de Debate aqui ou no Youtube. Consulte o Programa completo ou o Dossiê de Imprensa.



