A frase solta "É sobre abismos que voam os poetas", retirada da última obra publicada de Álvaro Laborinho Lúcio, A Vida na Selva, foi o repto lançado pelo moderador Henrique Cayatte para a discussão na última Mesa de debate de sexta-feira, no Correntes d'Escritas.
Andreia C. Faria, António Cabrita, Mário Tiago Paixão, Marta Bernardes e Renato Filipe Cardoso foram os autores convidados para uma conversa que não defraudou as expectativas do público, que, sem exceção, tem lotado todas as sessões no Cine-Teatro Garrett.
Com o intento de “sobrevoar alguns abismos”, Andreia C. Faria identificou a poesia como “a mais pública das artes”, que paradoxalmente, “nasce de uma paixão privada e irredutível que o poeta preferiria manter secreta”. Atrai ódios, causa “um certo pudor”, é “teimosia gentil” e “alegria serena”, “convocação e magia”, que gera um vínculo entre leitor e o seu objeto e cria a “ilusão de um caminho de regresso”, ainda que, para a autora, seja raro encontrar um poema que se ame, “tão raro como um encontro amoroso”, quiçá.
Perante os “diferentes abismos” enfrentados pela poesia nos seus 50 anos de edição, António Cabrita descreveu esta arte como uma “polaridade heróica onde se alternam a morte, a beleza, a dor, a criação” e um “caminho supremo da criatividade” e de atração pela ruína. Com a ameaça da inteligência artificial como abismo dos tempos que correm, o poeta e ficcionista alertou para a necessidade de nos “centrarmos no saber, se não queremos cair numa nova mitologia, agora de sabor caricatural”.
Mário Tiago Paixão identificou o tema da Mesa 8 como uma imagem muito poderosa, à qual tentou aproximar as palavras abismo e selva, “como experiências concretas do nosso tempo”. O Abismo, descrito como “falar sem saber se alguém responde, escrever sem garantias, aceitar que se pode cair no silencio e não ser ouvido, sem triunfo, sem ser elevação, apenas risco”. A selva, identificada como “excesso de ruído, concorrência, sobrevivência sem mapa, que não oferece caminhos sinalizados e cresce numa luta permanente por espaço”. Assim, para o escritor e professor universitário, ambos os termos coexistem partilhando algo essencial: “nenhum deles é neutro”.
Em memória de Álvaro Laborinho Lúcio, “um homem com quem aprendi muito a rir de quem acha que manda em nós”, Marta Bernardes lembrou que na sua primeira intervenção partilhada no Correntes d’Escritas “respondia, do alto da minha ignorância, algo que ainda hoje acredito: que sem desejo não há aprendizagem, que o desejo é o objeto de resistência e de subversão por excelência, porque é propulsor sem objeto”. Como o riso é “um primo bastardo do ato poético”, que “percorre e sobrevoa os abismos”, a escritora optou, então, pela “resistência pelo riso contra a opressão” e, no processo, “fazer o Álvaro rir”.
Em tempos de uma “humanidade cada vez mais na forma tentada”, Renato Filipe Cardoso refletiu sobre a pobreza dos poetas “menos bem vestidos e preparados para o mundo”, que escrevem “sobre o eu”. Em oposição a esta “declaração narcísica de falência”, a poesia deve, na opinião do autor, ser uma “centelha que explora caminhos”, uma “dádiva que não cai do céu”, escrita por “todos os que escrevem sobre o que veem, o que apreendem e o que sentem”, em suma, “sobre o outro”.
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