Com moderação de Onésimo Teotónio Almeida, a mesa contou com as intervenções de Irene Marques, José Alberto Postiga, Lúcio Marques e Michael Gouveia, autores da diáspora que partilharam com o público a sua experiência do modo como “toda a escrita começa depois da emigração”.

Irene Marques leu o seu texto intitulado “Reminiscências Verbais” em que se assumiu como “uma mulher que escreve. Escrevo antes de escrever, escrevo quando escrevo e escrevo depois de escrever e de ser descrito por outros. Um ser possuído de muitas reminiscências verbais”, que enumerou.

A escritora bilingue refletiu sobre as suas “reminiscências de mulher que se descreve, que é escrita e descrita por ela própria e por outros, mas que também se descreve novamente para depois se escrever e descrever ou por outros ser escrita e descrita num papel branco que acaba por agraciar a sua língua base. Um ser que se tenta escrever e descrever e inscrever constantemente para se recompor da coisa que a palavra lhe disse que ela era, mas que outra coisa dentro dela sempre tenta, sensata e inteligente, sabe não ser essa íntegra verdade. E assim continuo sempre solta e vocês acompanham-me nesta liberdade ontológica que é fundamentalmente, também, ou sobretudo, uma liberdade literária, linguística, feminista, a minha própria corrente de escrita, aqui de escrita”.

José Alberto Postiga, o escritor poveiro que regressou, recentemente, a Portugal, após 20 anos emigrado na Suíça, optou por uma comunicação pessoal em que falou da sua experiência familiar relativamente à emigração.  Recuou a maio de 2005, data em que deixou Portugal rumo à Suíça e descreveu a casa onde lá morava com a família como “um pedaço de chão português além-fronteiras, um pedaço de areal da praia da Salgueira”, remetendo para a sua terra, a Póvoa de Varzim.

Recordou janeiro de 2017, uma madrugada em que escreveu um texto intitulado “Há um tempo certo para a felicidade”, sendo essa felicidade o regresso a Portugal, o futuro. O escritor revelou que todos tinham desejo de regressar a Portugal, e quando esse era tema de conversa, esta terminava em silêncios: “não estávamos felizes como outrora e havia a sensação de grande vazio”, encontrando José Alberto Postiga na escrita a forma “de purgar das dores de ausência”.

Lúcio Marques partilhou a sua experiência de autor brasileiro com ascendência portuguesa e de que modo esta condição influenciou a sua escrita. Para o escritor “somos o que queremos ser” e, no seu caso, “a identidade está mais associada a Portugal do que ao Brasil”, acrescentando que a “origem definiu o seu crescimento afetivo atípico, mas predominantemente português”.

Quanto ao valor das palavras, entende que “não satisfazem a totalidade do que se quer dizer”, mas são “as palavras, enquanto nome (próprio), que nos distinguem no mundo”.

Vindo de Montreal, Canadá, Michael Gouveia confessou que não considera que “os escritores estejam assim tão à vontade com as palavras”, pois “muitas vezes, os desafios da vida são indizíveis. Quantas vezes me faltaram as palavras…, mas é a escrita que dá forma às minhas perguntas, o que se aplica também à leitura. As palavras têm promessas de sentido, e escritores e leitores são fascinados pelas palavras”.

A propósito do seu primeiro romance, publicado em português em 2023 – “O Herdeiro” – Michael Gouveia divulgou que aborda a ambiguidade da identidade, não só identidade cultural, mas também existencial: “sentia que não pertencia nem a uma nem a outra. Portugal é a origem perdida, horizonte”, e com este livro quis prestar homenagem à vida dos emigrantes e aos seus pais e, ao mesmo tempo dar o ponto de vista da segunda geração de emigrantes.

Não podendo estar presente na Mesa, conforme previsto, o convidado Manuel Paiva fez-se representar num texto lido por Onésimo Teotónio Almeida.

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