Se, ao longo de todo o festival, uma das constatações que vão ganhando estatuto de repetido espanto é a enorme afluência de público (estamos sempre a falar de centenas de pessoas, é bom ter presente, para quem nunca presenciou o tantas vezes citado “Milagre da Póvoa”) mesmo assim, ainda há lugar para sucessivas surpresas. Na última mesa, Sábado à tarde, sob o lema “Literatura: uma questão de inteligência invisível”, o remodelado Cine-Teatro Garrett acolheu a sua maior enchente, com o banho de multidão a inundar a sala, o 1º Balão (várias vezes referido ao logo destes dias de forma divertida, como “galinheiro”, citando o poema de José Carlos Vasconcelos que ornamenta uma das paredes do Hall), os corredores, o bar (as intervenções eram escutadas por sistema interno de som, um pouco por todo o lado), e a salvadora Sala de Atos, que permitiu a mais cerca de centena e meia de pessoas – este que se assina incluído – assistirem a tudo, pela projecção vídeo em tempo real.

Sérgio Godinho evocou mesmo o filme “Uma Noite na Ópera”, dos Irmãos Marx, quando a cabine de um navio é invadida de forma surrealista por uma multidão, que vai entrando, entrando, incluindo uma manicure. «Como quer as unhas? Rentes. Aqui, o plano de cena é real», responde Groucho. «Vocês cortaram todos as unhas«, brincava Godinho.

Uma mesa que inclui como oradores Carlos Quiroga, Gonçalo M. Tavares, Margarida Fonseca Santos, Mário Cláudio e Onésimo Teotónio Almeida é uma demonstração do patamar a que se aponta.

O humor e a reflexão filosófica podem jantar juntos? Devem. A Literatura é feita de memórias, mas também das ambições? Convém. A informalidade é conveniente, quando se pretende seriedade? Facilmente demonstrável. A Cultura é um prazer e não uma obrigação? Ainda há dúvidas?

O cantautor acabou por recorrer a uma das suas canções para expressar não só as ideias que pretendia articular com o tema proposto, como com a circunstância – poucos são os que não se comovem, cada qual a seu modo, quando se deparam com um público tão vasto.

«Nos anos 80 escrevi uma canção, chamada Salão de Festas, onde digo “se agora danças /logo pensas/ e mais/ fazes diferentes / dias que eram iguais”. Anos depois, encontrei uma frase de Samuel Beckett: “Dança primeiro, pensa depois; é a ordem natural das coisas.» Além de remeter para um conhecido título de António Lobo Antunes, a frase é elucidativa. Tal como é esclarecedor – e motivador – o início dessa mesma canção: «Benvindos todos ao salão de festas / faz bem andar metido nestas andanças». E faz mesmo!