Com moderação de Cláudia Lucas Chéu, a terceira Mesa de debate do Correntes d’Escritas principiou com a intervenção de Elisangela Rita. A escritora luandense lembrou a sua avó, “lavadeira profissional” para definir a poesia como algo que “nasce por dentro e transborda” e que deve “ser purificada, lavada e estendida”, sob pena de “acumular, sufocar, amordaçar e matar”. 

Para Fernando Aguiar, “o livro é um território amplo e intemporal, onde o leitor se perde a cada frase que percorre” e se encontra a “cada fragmento”. Ao ler, o leitor “convoca as suas memórias, experiências, inquietações, confronta-se com a própria consciência e constrói narrativas paralelas que coexistem com o texto escrito”. Em suma, nas palavras do poeta, artista plástico e performer, o autor, que era até ao momento da leitura “dono e senhor da obra”, perde o controlo do texto e fica “ao dispor do leitor, sem possibilidade de contraditório”.  

“Com muita responsabilidade e carinho”, a estreante no Correntes d’Escritas Sara Duarte Brandão recordou o seu avô de quem aprendeu “a lição mais importante de todas”: “os livros são as pessoas”. A premiada poeta e romancista considera que “escrever é um ato revolucionário” e vê a literatura como “uma forma de resistência”, que a todos pertence, “mesmo a quem não lê com destreza”. Assim, o livro mais não é, na opinião da autora, que uma “forma ancestral e única de diálogo entre escritor e leitor”, que permite que, no final, todos consigam “atingir o seu privado”.
 
Em concordância com o tema que deu o mote à conversa, Teolinda Gersão entende que “a verdadeira leitura é solitária” e nunca deixa de ser “interrogação e uma descoberta ao encontro do desconhecido”. A renomada escritora e professora universitária levou a plateia do Cine-Teatro Garrett numa viagem pela literatura que mais marcou a sua “memória afetiva”, considerando o livro uma “obra revolucionária” e que dá voz a quem não a tem.

A finalizar o debate, Verónica Gonzalez Laporte lembrou o “estranho paradoxo” de um livro ser o que temos de mais privado “numa época em que quase tudo é partilhado nas redes sociais”. Vivemos, para a escritora mexicana, numa “era do vazio”, onde o livro, “espaço privado em que ninguém nos observa”, pode ser visto como a “última resistência contra a superficialidade e a superexposição absurda”.

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